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14 June 2006 @ 12:57 am
Cheap Thrills e as amizades complexas  
Em outro post, em outro lugar, comentei sobre os aspectos fisiológicos dos primeiros estágios do amor romântico e como ele gera prazeres e satisfações num nível neuroquímico que se assemelham às situações de dependência de substâncias – viramos “love junkies”.
A sensação é tão prazerosa, se integra e contextualiza tanto nossas atividades e a falta da emoção que a gera é tão incômoda que tendemos a buscar satisfazer essa necessidade de “amar romanticamente-obsessivamente” (e, por que não, superficialmente).
Entram aí as “cheap thrills” – emoções baratas. Os estímulos, em geral oportunistas (deliberados, feitos com a intenção de criar um “clima” de intimidade romântica artificial, com o objetivo de obter algum tipo de vantagem da “junkie”) ou simplesmente irresponsáveis (porque para o autor do estímulo é uma conquista barata a mais, um brinquedo) são verbais. Como disse para mim uma sofredora anônima, o sujeito diz “eu te adoro” como quem diria “boa tarde”. Mas tenho convicção de que não é uma confusão verbal: no fundo, ele sabe o que está estimulando. “Eu te adoro”, “eu te amo”, “você é muito gata” e outras coisas ainda mais íntimas freqüentam os diálogos que nos provocam esses “cheap thrills” e corremos para eles como o dependente de heroína dança atrás de Mr. Tambourineman.
Nas sombras da nossa própria miséria afetiva e sentimental, nos perdemos nesses nevoeiros de emoções baratas que nos satisfazem somente até a próxima dose, pois são drogas fortes, porém passageiras e impermanentes. Precisamos de mais e mais. Precisamos que o conteúdo delas se atualize o tempo todo.
Mas uma hora o provedor de “cheap thrills” se cansa da brincadeira, ou fica com medo, ou se assusta com nossa reação e esclarece: “ei, era de mentirinha, somos apenas amiguinhos, não confunda as coisas”.
“Hey, Mr. Tambourineman, play a song for me!” E nada. Nenhuma canção. Silêncio. Nós silenciamos a canção porque jamais poderia ter sido revelado a nós que se tratava apenas de uma mentira. O jogo termina quando se torna explícito como jogo.
E aí vem a raiva e o ressentimento. Nos sentimos usadas como o dependente químico miserável é usado pelo traficante inescrupuloso (pois há traficantes com ética, creiam-me).
De quem é a culpa? Do traficante de “cheap thrills”? Não. Ele só é parte de um mecanismo de vida rasa e superficial que seduz, quase sempre, as pessoas cuja densidade é maior e por vezes sufocam em sua própria viscosidade. “Cheap thrills” satisfazem, são o correspondente emocional do algodão doce ou choquito: caloria vazia, de baixo valor nutricional e barata.
Não sei como resistir a elas, como minha prima obesa não sabe resistir a uma panela de brigadeiro – caloria vazia. Minha prima tem resistência a uma refeição real, com proteína de alto valor biológico, carboidrato de baixo índice glicêmico, fibras e vitaminas. Eu tenho resistência a formas mais densas e reais de emoção alheia. Tenho medo. Fujo delas.
Confesso que não sei como lidar com isso, exceto me apegando ao meu valor supremo, que é a fé na verdade, na sinceridade e na objetividade. As coisas e os sentimentos têm nome, e devem ser chamados pelos que merecem. Se amamos, amamos, e isso não traz consigo, de forma alguma, a implicação de que devemos viver um relacionamento amoroso. Implica apenas que o nome daquele sentimento é amor. Ou desejo. Uma relação quase nunca é simples – em geral é complexa, ou composta. Dificilmente temos “apenas amizade”; “apenas amor filial”; “apenas paixão”. Quase sempre, são complexas e criativas combinações que quase nunca produzem resultados em termos de transformações radicais nas vidas dos envolvidos. Uma grande parte das amizades entre homens e mulheres não é “apenas uma amizade”. Esse “apenas” é o termo mais mal empregado da história dos diálogos ocidentais. Falta cursar a disciplina de lógica II para compreender o significado de operadores lógicos. As amizades mais poderosas freqüentemente são altamente erotizadas, ou, mais, possuem um conteúdo romântico-platônico. Dificilmente se transformam em relações românticas, pois isso em geral se define muito rápido no curso de uma interação a dois. Mas reduzir essas belas, maravilhosas relações complexas a “apenas amizade” é quase que um insulto. É sinalizar que as trocas íntimas, que nos tocaram, que nos emocionaram, eram apenas... “cheap thrills”.

Marilia


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