Ontem levei a Mel ao hospital São Luiz por causa de uma dor recorrente no adutor. A equipe daquele hospital é muito competente e investiga realmente todas as possibilidades, de modo que ficamos lá das 17h-23h fazendo todos os tipos possíveis de exames. Era mesmo uma lesão muscular pouco extensiva.
Mas durante as horas que ficamos lá experimentei duas vezes a sensação de impotência com o sofrimento de outra pessoa. A mais complicada para mim é a que diz respeito à minha filha, claro. Até ali eu tinha administrado bem a raiva e frustração dela com lesão esportiva. Mas no momento em que o médico apalpou o abdômen dela e suspeitou de algo não-muscular, fiquei alarmada e por alguns instantes reagi mal: “como assim? Abdômen como? Apêndice como??”. Não era. Mas a hipótese de que fosse me tornou tensa e agressiva.
A outra situação foi um caso de fratura, cujo paciente nem vi: apenas ouvi os gritos. Esse tipo de coisa é de se esperar numa emergência hospitalar – afinal, é para isso que servem. E num hospital super-equipado e de atendimento impecável como o São Luiz, onde se medica o paciente e se reduz seu desconforto imediatamente, se vê bem menos coisa feia do que em outros lugares. Mas se vê, obvio.
Enquanto o paciente gritava, eu me apertava. Senti uma angústia muito grande. Tive a certeza absoluta de que não serviria para aquilo – nunca poderia ser médica ou enfermeira. Numa situação como aquela, eu entupiria o sujeito de dolantina. Dor é uma coisa odiosa, revoltante. Não tenho tolerância com o sofrimento – nem meu, nem dos outros.
Quinta-feira estive no meu psiquiatra, para uma consulta de rotina anual. Sem muito assunto meu, nada de complicado, falamos sempre de questões de pesquisa e clínica. E ultimamente eu concluo sempre num tom muito pessimista com a psiquiatria, sabendo que o profissional em questão é tão competente e maduro que entende minha crítica. Mas dessa vez contei a ele que numa certa altura da vida, mais ou menos na idade da Mel, eu quis prestar vestibular para medicina para fazer psiquiatria. E que hoje eu me sinto feliz de não ter feito isso: eu não suportaria. Muito pior do que a fratura exposta que causou os gritos de dor no São Luiz ontem, é a degradação de humanos em formas sésseis de vida que a medicação psiquiátrica provoca. E eu não suporto a confrontação com essa forma suprema de sofrimento: a da perda da humanidade.
Marilia