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09 August 2006 @ 07:06 am
Daltonismo cognitivo  

Detesto usar o telefone. Sempre achei que isso era porque sou um pouco surda para certas faixas de frequência, de modo que tenho dificuldade em entender o que o interlocutor fala. Mas não é isso. O telefone tira para mim sinais comunicativos que reduzem mais ainda minha já deficiente interpretação de sinais não verbais. Meu mundo preto e branco perde os contornos, fico cega.

Não sei de onde vem isso – deve ser mais uma daquelas maluquices genéticas que transformam terráqueos em marcianos e neurologistas em antropólogos, como dizia Oliver Sachs. O fato é que eu não tenho essa coisa que se chama vulgarmente de intuição, que é uma habilidade inata de interpretar o “não-dito”.  Conversando com um amigo muito próximo, um dos poucos com quem falo ao telefone mais do que um ou dois minutos, descobri que pertencemos a um minúsculo grupo de pessoas que tem mesmo essa deficiência e ela não é superável. Perguntei a ele se ele não achava que isso tinha uma distribuição contínua, tipo gradiente, na população, e que talvez todo mundo tivesse alguma dificuldade em gerar essas interpretações. Ele foi curto e grosso: “não, Marilia, eles sacam coisas que nós não vemos, é simples assim”.

Nós não percebemos que o outro está ressentido porque elogiamos um adversário. Só ficamos desconsertados ao ser mal-tratados ou recebidos com frieza, pois não temos a menor indicação verbal do que se passou.

Temos muita dificuldade com os jogos de interesse e politicagem institucional. Tanto meu amigo como eu levamos a sério propostas que recebemos para prestar concursos em boas universidades, onde, do ponto de vista objetivo e meritocrático, seríamos a escolha óbvia. Ambos perdemos em condições ridículas, porque não “sacamos” que a proposta fazia parte de um outro jogo, que havia um outro candidato escolhido, que por trás do enunciado “gostaríamos que você fizesse o concurso porque acreditamos que você é o perfil que precisamos no nosso departamento e nenhum currículo se iguala ao seu” havia um outro que dizia assim: “esse concurso é de mentirinha, o Fulano será escolhido e queremos que você preste para dar legitimidade ao processo. Quem sabe, colaborando conosco ao prestar esse concurso, você aumente suas chances para um próximo concurso”. Nós não entendemos – outros entenderam e estão lá, após um ou dois concursos “colaborativos”.

 Não sacamos cantadas. Não sacamos foras. E não sabemos fazer nem um, nem o outro, de uma maneira que não seja absolutamente explícita.

Os homens que chegaram sexualmente até mim chegaram porque foram totalmente explícitos ou porque, num certo ponto, achei que havia uma quantidade suficiente de indicadores para que eu concluísse que ele estava interessado. Então, sempre fiz aquilo que me transformou em piada entre amigos: “e aí, vamos nessa?” Putz, Marilia, mulher nenhuma age assim...

Eu não sei o que existe entre uma coisa e outra. Não sei como é esse caminho entre pequenos sinais de sedução e a cama. Nunca soube.

Não é por acaso que ambos – meu amigo e eu - temos uma sólida formação científica e analítica de modo geral. O que nos falta em funcionamento neural, tentamos suprir com nossa racionalidade. Temos pensamento probabilístico. Tentamos computar sinais não-verbais segundo sua tendência geral. Somos excessivamente pessimistas, sempre, precisamente por essa abordagem probabilística.

Minha filha até hoje lembra do horror das minhas reações quando ela fez alguns “testes” comigo, coisas das quais vejo outras pessoas abusando a torto e à direta. Ficou quieta, esperando que eu “percebesse” algum desconforto dela, adivinhasse de onde vinha ou lembrasse algo que eu deveria lembrar. Nunca mais ela fez, porque eu literalmente surtei quando percebi que esse era o jogo. Entrei em pânico, me senti numa armadilha mortal e me enchi de droga.

Pessoas como nós tendem a se isolar ou a criar uma série de barreiras para lidar com os outros.

Escrever tudo isso e postar num blog na internet é, para mim, equivalente a ter escrito sobre minha condição bipolar ou sobre minha sobrevivência ao suicídio. São coisas que por muito tempo fiz tudo para esconder. Coisas que, descobertas por outros, foram armas muito poderosas contra mim.

Há mais de vinte anos, quando meu trabalho num laboratório se tornou particularmente interessante, fui expulsa dele. A pessoa que me expulsou foi bastante clara: o motivo era que eu não era controlável e do ponto de vista intelectual, completamente auto-suficiente. Tinha algo quente na mão. Então ela me disse: “eu sei que você toma remédios, que tem desordem mental, então eu disse ao chefe do laboratório que foi você que abriu o bujão de nitrogênio líquido e espalhou as células em cultura pelo chão. Todos vão acreditar, porque a louca aqui é você.”

Meus maridos e namorados foram todos muito manipulativos. Sei que todos sabiam dessa minha dificuldade de percepção. Usaram como puderam. Um deles passou meses me assediando para que eu saísse da cidade onde vivia, nos Estados Unidos, para viver com ele no Brasil. Com isso, eu perderia meu trabalho, pelo menos temporariamente. Ele me pediu para deixar o orgulho de lado por um tempo, que ele cuidaria de mim. Tudo isso foi dito por escrito, em e-mails, e também verbalmente. Guardo as provas até hoje. Quando cheguei na cidade brasileira, bastante fragilizada por tudo que havia acontecido antes, que incluiu interrupção de carreira e um acidente com minha filha, ele me disse que... pensando bem... preferia que eu morasse em outra casa. Isso não aconteceu, continuei vivendo com ele, mas a partir daí num estado de insegurança tão absoluto que me transformei num capacho. A insegurança perceptiva é o maior instrumento de dominação em relação a mim.

Meu companheiro de mais tempo um dia me disse: “você é tão forte, tão poderosa, que dá prazer ver você insegura e perdida”.

Por motivos óbvios, me envolvi de verdade com pouquíssimos homens – talvez o pânico dessa dominação perceptiva, que tende ao sadismo, somado a outros medos, tenha sido determinante. Mas o fato é que a manipulação dos silêncios, das ambiguidades, dos sentidos ocultos e das sugestões implícitas para mim é insuportável. Me sinto como um animal de laboratório, à espera, em sua gaiola ascéptica, da próxima crueldade que as pessoas de jaleco branco farão com suas seringas e “estímulos” (como um dia eu mesma já fiz e nunca me esquecerei do olhar de horror dos coelhos do biotério).

Me lembro do cousin Kevin do Tommy. Tommy cego, surdo e mudo sendo molhado, jogado da escada e outras coisas que alguém desprovido dos sentidos experimenta de forma bastante “diferente”.

Essas pessoas são do mal? Sim e não. We all have our dark side, to say the least (Pink Floyd, Dogs of War). Mas o fato é que todos queremos controle e poder. Tendo consciência disso, fica mais fácil, com alguma ética e princípios, não usar esses impulsos para machucar os outros. Mas não é fácil e admito que gente cognitivamente daltônica como eu é um prato cheio para o controle alheio.

A cada nova aproximação que confirma a regra de que gente como eu inspira ou “acorda” esse desejo de dominação, mais arisca eu me torno ao envolvimento – com amores e amigos.

Acho que não adianta muito tentar esconder nada. Hoje, quem quiser usar minha desordem mental para me desqualificar que esteja à vontade: coloquei aqui para o mundo ver, assumo minha condição porque viver no armário é um inferno. O mesmo com meu daltonismo cognitivo: não saco mesmo, não tenho intuição, mas, quem usar isso contra mim, o fará sabendo das implicações manipulativas disso.

Chega de cousin Kevin.

 

Marilia

 

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