Minha mãe achou essa anotação hoje em casa. Estava no meio de uma pilha com décadas de desenhos e dizeres de filhos e netos. Neste, eu, com meus quatro anos de idade, dizia:
“mãe, sabe que você é um besouro?”
Ela, surpresa, perguntou:
“besouro??!”
Então eu cantei um trecho de uma musiquinha infantil onde obviamente a palavra era “tesouro” (como “mamãe é um tesouro”). Como tesouro não significava absolutamente nada para mim, ficou besouro.
Não parecia haver muita surpresa no meu enunciado – apenas verificação.
Lembrei que meu amigo Edison contou que por anos ele ouviu “Aquarela do Brasil” imaginando uma senhora gorda e negra sentada num telhado. A imagem o intrigava, pois não sabia o que a senhora estaria fazendo no telhado, que ele sempre imaginava inclinado (como o da casa dele, claro) e desconfortável. Depois passou a se perguntar como ela teria ido parar lá. E finalmente, por que ninguém a ajudava a descer.
Só muito mais tarde foram lhe contar que era “cerrado” e não “telhado”.
Só por uma meia hora, gostaria de recuperar a capacidade de não estranhar que minha mãe fosse um besouro. Que isso aqui ...
Mãe = fêmea da espécie Homo sapiens sapiens; ordem: primata; classe: Mammalia; filo: Chordata; reino: Animalia
Besouro = classe: insecta; filo: artropoda; reino: animalia
Logo: mãe NÃO PODE SER besouro
... não fosse tão automático.
O mundo seria mais divertido.
Mãe...
