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05 February 2008 @ 12:49 am
Gaia  

Esse texto estava na minha tese de doutoramento e nunca foi publicado. Fiquei anos sem olhar para ele. Hoje mandei para uma amiga para explicar como certas idéias tiveram ou não impacto em mim. Outra hora exploro as outras – essa foi uma, poderosa. A parte importante está em vermelho. O resto é contexto.

 

4.2. Gaia

J. Lovelock (1979) afirmou em seu livro antológico que as crenças antigas na Mãe Terra e o conhecimento científico moderno fundiram-se emocionalmente no momento de espanto e reverência em que a primeira viagem à Lua mostrou a Terra em sua beleza resplandecente contra a escuridão do espaço. De fato é uma sincronia fabulosa: como um gigantesco video-clip, as imagens que chegavam do espaço encontravam os movimentos sociais de contracultura a resgatar cosmologias de outras culturas e os círculos acadêmicos da Ecologia a adotar perspectivas globalizantes, a articular denúncias catastrofistas de ataques ao planeta, tudo isso se combinando num grande fórum de discussão que iluminava questões como ética ambiental e modo de vida. Se não é verdade que houve a fusão emocional que Lovelock identificou em grande escala, pelo menos um produto essa conjuntura certamente gerou: sua Hipótese de Gaia.

A Hipótese de Gaia nasceu no início da década de 60, quando Lovelock colaborou num programa da NASA para detectar vida em outros planetas. Sua participação envolveu produzir uma definição termodinâmica de vida que permitisse projetar experimentos de detecção de vida baseados em parâmetros energéticos. Lovelock participou em seguida (em 1966) de um programa de pesquisa sobre possíveis consequências globais da poluição atmosférica, patrocinado pela Shell Research Limited. Essas duas experiências tiveram um papel decisivo na elaboração da Hipótese de Gaia, a qual foi apresentada pela primeira vez em 1969, em Princeton, New Jersey. Foi nessa ocasião que Lovelock iniciou um longo trabalho de colaboração com Lynn Margulis, controvertida bióloga que se tornou muito conhecida por sua polêmica hipótese sobre a evolução de organelas intracelulares (hipótese endosimbiótica).

A Hipótese de Gaia afirma que a atmosfera, a biosfera terrestre, os oceanos, enfim, toda a cobertura da crosta terrestre, formam um sistema cibernético capaz de manter as condições química e físicamente ótimas para as atividades que caracterizam a vida. Gaia seria mais do que um agregado de condições: ela própria se conformaria à definição termodinâmica de vida; seria, portanto, um enorme ser vivo envolvendo o planeta. O maior de todos os ecossistemas. Assim Lovelock a definiu, dentro da matriz conceitual da Ecologia de Ecossistemas, com seu tão característico viés cibernético. E assim E.P. Odum a reconheceu (Goldsmith 1988(b)).

Gaia é um ser extremamente resistente. Seus "órgãos centrais", estruturas importantes e funções fundamentais, são infinitamente menos sensíveis do que as de formas de vida como a humana ou as de outros animais e plantas. No entanto, dependendo dos efeitos da atividade humana sobre estes órgãos centrais, as condições de vida na Terra mudarão de modo a inviabilizar a permanência dessa espécie, uma vez que as mudanças e o próprio restabelecimento do equilíbrio operam numa escala de tempo em relação à qual uma geração é algo ridiculamente efêmero.

O quanto a Hipótese de Gaia é produto da fusão ou da conjunção de sensibilidades que fez da década de 60 um cenário tão especial é revelado pela seguinte passagem lírica do epílogo do livro de Lovelock (1979):

These are just two examples of possible large-scale emergencies for Gaia which we might in the future be able to help her resolve. Still more important is the implication that the evolution of  homo sapiens, with his technological inventiveness and his increasingly subtle communications network, has vastly increased Gaia's range of perception. She is now through us awake and aware of herself. She has seen the reflection of her fair face through the eyes of astronauts and the television cameras of orbiting spacecraft. Our sensations of wonder and pleasure, our capacity for conscious thought and speculation, our restless curiosity and drive are hers to share. This new interrelatiionship of Gaia with man is by no means fully established; we are not yet a truly collective species, corralled and tamed as an integral part of the biosphere, as we are individual creatures. It may be that the destiny of mankind is to become tamed, so that the fierce, destructive, and greedy forces of tribalism and nationalism are fused into a compulsive urge to belong to the commonwealth of all creatures which constitutes Gaia (Lovelock 1979, p.148).

Como o próprio Lovelock admite, sua reanimação da visão de que "nos encontrávamos sobre um superorganismo[1] ao invez de uma mera bola de pedra" (Lovelock 1988) não foi muito bem recebida pela comunidade científica:

Things have taken a strange turn in recent years; almost the full circle from Galileo's famous strugle with the theological establishment. It is the scientific establishment that now forbids heresy. I had a faint hope that Gaia might be denounced from the pulpit; instead I was asked to deliver a sermon on Gaia at the Cathedral of St. John the Divine in New York. By contrast Gaia was condemned as teleological by my peers and the journals Nature and Science, would not publish papers on the subject (Lovelock 1987, p.vii).

O principal alvo de crítica da hipótese de Gaia foi seu conteúdo teleológico e determinista (Lindley 1988). A hipótese de Gaia é uma expansão do conceito de ecossistema como se encontra formulado pela Ecologia de Ecossistemas: não há nenhuma grande novidade conceitual, como comenta o próprio Lovelock (1987). Provavelmente, sua rejeição por um segmento significativo da comunidade científica se deve à interpretação de que essa foi uma expansão para o lado "errado". É preciso lembrar que a Ecologia de Ecossistemas já foi, ela própria, criticada pelos mesmos atributos pelos quais a Hipótese de Gaia foi condenada: determinismo e teleologia[2]. Criticada ou não, a hipótese de Gaia foi de fato admitida por alguns segmentos da comunidade científica[3] e amplamente incorporada pelo pensamento ambientalista. Gaia é um elemento importante na tentativa, em curso na Ecologia Profunda por exemplo, de formular um novo "paradigma ético" para o ambiente (Petulla 1989).

 



[1] Como foi mencionado no primeiro capítulo, superorganismo é um termo associado ao conceito de comunidade de um referencial teórico muito disseminado na primeira metade do século, cujo mais importante representante foi F.E. Clements.

[2] Veja a esse respeito Simberloff, op. cit.

[3] Veja a esse respeito D. Lindley, "Is the Earth alive or dead?", Nature (332, 1988), 483-484, e E.O. Wilson, Biodiversity (Washington, 1988).