Quando eu era pequena, gostava de pegar lagartas. Todos os tipos de lagartas, também chamadas lá em casa de “tatoranas”. Quanto mais exóticas, mais eu me interessava. Conta a lenda (onde ficam as histórias das quais não nos lembramos) que, uma vez, uma verde me queimou quando eu estava no colo da minha mãe. No entanto, quando me lembro por gente, eu pegava todas na mão, sem nenhuma técnica, e nada acontecia.
Eu achava lagartas um tipo de bicho de pelúcia em miniatura. Fofinhas e macias. Mais tarde fiquei sabendo que elas viravam borboletas ou mariposas. Então, de vez em quando eu colecionava algumas até virarem pupas, para observar a metamorfose. Ficava horas olhando os bichos desajeitados e molhados saindo dos casulos para em seguida sairem voando.
Sempre achei estranho que outras pessoas fossem queimadas por aquelas coisas peludinhas. Me pareciam tão inofensivas. Mais tarde me pareceu estranho o contrário: que eu não fosse queimada por larvas de lepidópteros munidas de potentes toxinas. Finalmente, me tornei bióloga e desisti de entender tudo isso.
Ontem vi lagartas no muro quando saía para a praia, aqui em Peruíbe. Daquelas aveludadas, com padrão xadrez. Eu tinha paixão por elas quando era pequena. Passei a mão na pele macia de uma delas. Ela se encolheu toda.
Até hoje gosto de lagartas. Até hoje não sou queimada por elas. Até hoje não sei por que.
