Celina é um gato – é uma das gatas do meu irmão Laerte. Tem a Muriel e a Celina. As gatas são bem domésticas, daquele jeito felino típico. Laerte teve outros gatos, dois dos quais, neste mesmo endereço, foram mortos por veneno. Até hoje rumino a elaboração destas experiências, como a vaca emocional que freqüentemente me sinto. Rumino, rumino e não digiro – não elaboro uma bela e bem esgotada bosta.
Ontem Laerte me ligou falando rápido e então foi falando cada vez mais rápido. Celina sofreu um ataque por arma de pressão (chumbinho) e está com uma bala alojada entre vértebras. Está por hora paraplégica – se temporária ou definitivamente, não sabemos. Dei a resposta retardada de quem não elabora a informação: “Como assim?” (“como assim?” é uma espécie de sinal de erro do sistema, tipo “digite novamente”).
Celina foi atacada por alguém desconhecido. Achada largada, meu irmão a levou ao veterinário e a radiografia revelou uma bala alojada entre as vértebras. Lembraram então que em Novembro a Muriel apareceu mancando e, no veterinário, constatou-se que havia uma bala de chumbinho alojada na perna. Novembro, chumbinho na perna da Muriel. Muriel = gato. Janeiro, chumbinho na coluna da Celina. Celina = gato. Logo, quase certo que o autor é o mesmo e quase certo que o alvo dele são gatos domésticos indefesos (ou seria o meu irmão? Através dos gatos dele?). A única certeza absoluta que tenho é de que trata-se de alguém muito torto na sua composição humana básica. Se vamos chamá-lo de “alguém muito doente”, ou “alguém muito do mal”, para mim, é só uma questão de quadro de referência intelectual. De um jeito ou de outro é um monstro. Jeffrey Dahmer era um “cara muito doente”, comeu aos pouquinhos membros das suas vítimas que eram guardas na geladeira para tais refeições. Mas era um monstro e um sujeito obviamente vindo dos confins do inferno. Esse serial killer de gatos não é diferente. É a mesma mente covarde e isenta de empatia que o faz buscar a coisa mais vulnerável à disposição para exercer sua incontrolável necessidade de controle sobre algo – qualquer coisa. Psicopatas em geral são sujeitos medíocres, com vidas medíocres e com pouco controle real sobre o que quer que seja. Estupro, tortura e morte são apenas formas de exercer controle, e, assim, obter satisfação de uma libido perversa.
Enquanto isso, Celina se arrasta no quintal, ao tomar sol. No tapete, em companhia do Laerte. Pouco interessada nas conjecturas sobre seu agressor.
Amigos se prontificaram a acionar redes de defesa de animais. Afinal, um psicopata anda solto pondo em risco a vida de gatos inocentes.
Mas e se for ainda mais bizarro e indireto? Alguém louco o suficiente para querer punir o meu irmão? Sabe-se lá por que, por publicar arte que futuca fundo medos, vergonhas, desejos inconfessáveis e monstros escondidos nas cabeças cobertas por máscaras benignas? Tem gente que não suporta, mas apenas fecha a página em não lê. Deve ter gente que, ódio ou não, vai lendo, vai deixando o veneno aparecer no buraco cavado pelos símbolos que aparecem nas tiras do Laerte. Gente doente... Gente raivosa que tem ódio do mundo e precisa achar um culpado para as dores que ele mesmo se causou. E se um monstro desses resolveu obcecar com meu irmão e suas inocentes companheiras felinas?
Minha cabeça dá voltas tentando decifrar o enigma desse assassino fantasma, que munido de uma arma, é totalmente desprovido da única coisa que sei administrar: a razão. E tudo que não opera conforme a razão me dá medo, me dá horror e me dá repulsa...
Será que a Celina vai andar novamente?
Será que precisaremos de uma plataforma com rodinhas?
Será que ela prefere se arrastar?
Será que o assassino teria alguma reação a estas três perguntas? Se masturbaria? Diria bem-feito pelo sofrimento do meu irmão?
No fundo, tudo isso não passa de taxonomia de monstros.
