Eu tenho uma estranha afinidade completamente involuntária com baratas. Minha mãe gritava com baratas – eu matava. Quando eu estava na faculdade, não tinha ninguém para pegar as baratas do aquário e distribuí-las pelos grupos de aula prática de fisiologia animal – sobrou para mim. Depois, num dos meus estágios, ainda na graduação, criei baratas para estudar algo da bioquímica reprodutiva delas. Quando vim morar aqui, no Parque, tinha muito terreno baldio e portanto muita barata, aranhas armadeiras (muito venenosas e grandes!) e escorpiões. Antes eu pegava aranhas – passei a matar tudo, já que meu primeiro contato com elas foi quando uma se aproximou da caminha da Mel. Mas as baratas de mato, dessas verdes ... tinha dó, acabava apenas expulsando. As caseiras (acho que essas são as Periplaneta americana se não me engano) eu matava. Numa festa de aniversário para a Mel, ao fritar kibes, vi uma barata lentamente subindo pela parede de madeira (e portanto bem disfarçada). O que fazer? Se desse uma chinelada, chamaria atenção e seria nojento – constrageria os convidados. Então, rapidamente apanhei a barata com a mão, cuidadosamente, e coloquei no quintal. Fiz isso muitas vezes.
Numa das academias que eu freqüentei, limpíssima e fresca, apareceram duas e apenas duas baratas. Ambas acabaram pousando em mim. Seria a única mulher que não teria um ataque histérico com o pouso de uma barata voadora no corpo.
Uma vez, assistindo um filme com um amigo, uma barata atravessou a frente da TV. Não consegui pegar. Ele riu e previu que ela viria até mim. Batata: dali uns dez minutos ela estava andando no meu braço – dançou, matei.
Ontem às três da manhã fui ao banheiro. Uma enorme barata entrou comigo e assim que eu peguei o chinelo ela se ligou e fez meia-volta. Entrou debaixo de um móvel. Pensei comigo: “quer ver que vai aparecer na minha cabeceira?”. Não deu outra. Apaguei a luz e ouvi barulhinhos a centímetros da minha cabeça. Acendi a luz e vi o bicho se escondendo no meio do monte de vidrinhos, caixinhas e outras coisas da minha cabeceira. Saí pela casa em busca de um inexistente inseticida. Pensei em dormir no quarto da Mel. Quando voltei, mexi na cabeceira e ela se manifestou – acabei localizando e esmagando. Não era a barata do chão – era outra, menor. Achei um inseticida de cupim, desses bem tóxicos e oleosos. Espalhei debaixo dos móveis do quarto e fui dormir.
Eu acho que minha principal preocupação é a idéia de que elas venham andar na minha boca, que freqüentemente se abre durante o sono depois que quebrei no nariz. Nunca aconteceu, mas por algum motivo, a imagem de uma grande barata invadindo um orifício do meu corpo é algo que me causa um tipo de repulsa indescritível. Talvez porque me lembre cadáveres...
Marilia
