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09 January 2008 @ 10:49 am
Zombie  

Não tenho escrito, eu sei. Meu texto anda xoxo, sem-graça e sem sal. Tenho uns três ou quatro artigos me esperando e nada. Fico aqui cumprindo pequenas tarefas burocráticas. Não que não sejam importantes. São, e estão organizando o ano profissional em si. Mas eu olho minha lista de tarefas e não pareço ter o drive necessário para criar nada de bom sobre elas. Acho que chegou a hora de forçar a barra e simplesmente fazer – saia o que sair.

“Como você está?” me pergunta Ana. Acho que bem... Não sei muito responder. Não estou especialmente triste ou deprimida, e nem posso reclamar do andar das coisas. O trabalho parece organizado, tenho um patrocínio legal da Runner agora para treinar do lado de casa, tudo indica que o ano competitivo será interessante... Mas o tempo parece ter parado no meio de Dezembro. Numa bolha, dentro da qual eu fico, inexpressivamente observando o mundo à minha volta – um mundo que não atrai especialmente meu interesse.

Evito sair, evito multidões, tenho horror ao super-mercado e às tristes pessoas dentro dele. Desmarquei encontros. O cara de um desses encontros, alguém de quem gosto muito, pensa que virei monja, talvez. Deve ser difícil mesmo entender que eu rejeite sexo de boa qualidade em nome de uma busca mal-explicada pela paz interior ou sei lá que expressão usei.

“Você não acha que você mudou depois que a barra caiu na cara?”. Ana tem razão, algo mudou. Eu não sei o que. Ando sensível a contatos, embora um pouco apática e não-reativa. Essa estória de saber o que o outro vai dizer antes que abra a boca me incomoda, assim como me incomodam as sensações e impressões que não sei de onde vêm.

Mas o que mais me incomoda é essa falta de movimento em mim mesma. Como se um motor que funcionasse a alta rotação tivesse sido desligado. O que esse motor fazia? Não sei. Sei que basicamente virei uma observadora. Não sinto mais as idéias brotando furiosamente dentro de mim como antes. Não me sento e escrevo dez páginas de um conteúdo que depois eu mesma curto. Não só o mundo, mas eu mesma fiquei sem-graça.

“Desde quando isso?”, me pergunta Valéria. Desde que a barra caiu? Não... Depois disso teve muita coisa. Alguns textos, idéias, transições bruscas de humor e ainda havia aquele fogo interior que faz com que eu me sinta eu mesma. A paradeira acho que vem desde... o dia 8 de Dezembro. Desde que Angel morreu - “se morreu”. Olho para as fotos que tirei dele aquele dia – não tinha olhado antes. De novo a horrível sensação de... nem ouso dizer. Foi entre dia 8 e 9 que ele me comunicou que desistiu de tudo, que abandonou o esporte, a mim, a tudo. Durante aquela semana lidei com confusão e ansiedade. Imagens, flashes e sensações, contra as quais lutei. E dia 16 nos despedimos num encontro em que olhei para o corpo do homem que mais amei e não vi nada para dentro dos olhos amarelos. Vazio. Esse vazio tinha densidade e escorreu dos olhos dele como a gosma de um cadáver. A gosma entrou pela minha boca e se instalou em mim.

“Então a falta é do Angel”, diz Valéria, “como se você tivesse acomodado espaço na sua mente para a energia dele contribuir para suas criações”.

Será que eu era um vampiro dele? Chupei o sangue justo de quem eu quis mais proteger e alimentar? “Não”, disse Valéria. “Você deve ter dado tanto quanto ganhou. Mas admita, dos seus amores, foi onde houve mais sintonia.”

Confusão... do que será que mais sinto falta, de dar ou de receber? Não sei. Tenho trocas. Tenho bastante substrato criativo gerado em interação humana com a Mel, com a Ana, Val, Laerte... Mas não tenho sido capaz de transformar esse substrato em nada. O substrato existe – falta o combustível.

Me sinto meio zombie, andando pelo mundo, sem reagir muito, apenas observando sem interferir.

“Observe o seu umbigo, apenas observe, sem interferir”, comanda Léo. De olhos fechados e mãos sobre a faixa do uniforme de tai-chi, pensei ironicamente: “baba: é o que eu mais faço agora, observar sem interferir”. Então começou a passar um slide show na tela da minha pálpebra: uma gota multicor feita de massinha de modelar, que se transformava no Fantasma do tio Patinhas, que sumia de cena; minha própria mão, dedos azuis, dedão de plástico de boneca, a unha brilhante e sem cor e finalmente minha avó Zizinha sorrindo na minha frente, de saia marrom abaixo do joelho, meias de nylon e sapato fechado com salto médio, como ela sempre se vestiu.

Meu deus, me diga algo, Vó, como se sai desse marasmo??

Ela não disse nada, apenas sorriu e observou sem interferir.

 

Marilia

  
 
 
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[info]anacardilho on January 9th, 2008 01:22 pm (UTC)
Sentar na calma
"Sentar na calma" era o que mestre Liu Pai Lin nos mandava fazer nas aulas de Tai-Chi. Parecia fácil. Parecia que ali, na penumbra do dia amanhecendo na sala cheia de espelhos, naquela casa mágica da rua Padre Machado, nada aconteceria.
Mas, sentar na calma era bem mais difícil que a dança em si ou que qualquer exercício. E, comparando com o que faço hoje, era bem mais difícil que correr meus 10 km. Não fazer nada, não pensar em nada e deixar que tudo fluisse. Concentrar energia.
Talvez, neste momento, de "aparente" pouca coisa acontecendo, você esteja abastecendo suas baterias e recarregando-se de energia. Sente e espere. Concentre e respire. Não tenha pressa. Quanto mais energia vier, melhor. Dê-se a esse tempo. Já, já vai amanhecer.
anacardilho