Abri os olhos essa manhã e reconheci a luz filtrada que entra pelas janelas de tipo veneziana. Lá fora, seria a neve dos Apalaches, o reflexo do sol na escada de cimento em Osasco ou o dia claro da Ilha?
Senti o cheiro de café e mar e me espreguicei. Só o lençol me cobria, o calor forte denunciava que a manhã já ia alta. Sozinha, no quarto, saí da cama e coloquei o vestido de alcinha que estava em cima da cadeira. Cadeira de palha.
Na cozinha, a garrafa térmica com café e leite.
Sentei no batente da porta enquanto comia e fiquei olhando o céu absolutamente azul e telhas refletindo um sol ardido tropical. Mais para dentro, meu computador me esperava com textos pela metade. A paz solitária durante o dia, a ausência total do barulho paulistano que embalou minha infância e crescimento, permitem que os ritmos nascidos das entranhas escuras do meu pensamento se imponham sobre o que crio.
A hora de recebê-lo no almoço e no fim do dia são meus marcadores de tempo. Espero por eles. Da minha janela, escuto o barulho de pés na areia e no cimento. Em segundos, ele estará na porta. Em mais alguns, nos meus braços. Fecharei meus olhos e apertarei a cabeça dele contra minha barriga. Lá ele permanecerá por muito tempo de olhos fechados, escutando o fluxo do meu sangue e todas as coisas que as mulheres têm por dentro se mexendo, se acomodando.
Durante o dia, às vezes eu caminho até a praia e fico de cócoras olhando o mar. Com um graveto, escrevo palavras na areia que logo as pequenas ondas apagam. A-C-A-R-A-J-E; C-R-I-S-T-A-L; L-U-C-R-E-C-I-A. Depois enjôo e volto a escrever na tela do computador.
Hoje não sei se irei à praia.
De noite, vou me aninhar do lado esquerdo dele. Vou sonhar com um mundo estranho em que passo os dias dentro de uma academia e escrevo maluquices atrasadas num computador com monitor de tela plana. Quando eu tremer, alarmada, ele vai se virar na cama, me abraçar e dizer baixinho: “chh.... foi só um sonho, meu amor.”
Marilia