Hoje é dia 31 de dezembro. É verão aqui. Um verão especialmente quente. No Norte, onde vivem minha irmã e amigos, é inverno, com muita neve. As estações marcam ciclos naturais e influenciam a vida das pessoas, seus corpos, sua relação com o ambiente, seus hormônios e tudo mais. Minha vida é cíclica, feita de eras que começam, evoluem e terminam. Os começos e términos não coincidem com os finais de ano – as grandes viradas costumam acontecer no meio do ano. Pensando bem... não é bem assim: várias das "novas tendências" da vida se instalaram nos finais de ano. Por motivos relacionados à economia dos países, anos letivos, rituais e ciclos políticos, ficaram latentes até poderem se desenvolver e criar um clímax qualquer no meio do ano. Decidi meu doutorado num final de ano. Defendi minha tese de doutorado num mês de Novembro. Fui embora do país para meu pós doc em um mês de Dezembro. E depois de cada um desses acontecimentos, entrei num novo ciclo. As grandes mudanças e conquistas, foram entre junho e setembro: minha filha nasceu dia 29 de junho; eu sobrevivi milagrosamente a uma jugular aberta dia 4 de julho; minha filha sofreu um acidente e decidi voltar para o Brasil em junho; descobri o powerlifting e realizei o sonho do projeto social esportivo em junho; deixei Paraisópolis e quebrei a perna em julho.
Mas quase todos os terremotos de meio de ano foram sonhados no verão. Descobri que podia sonhar novamente, conceber futuros para mim e para a sociedade, alguns meses depois de quase morrer, em 2005. Era verão, final de ano. Meu corpo e perspectivas eram outros, eu havia recuperado a integração. Faltava o esporte e o projeto, que na época parecia ser o bodybuilding. Em fevereiro de 2006 aconteceu o famoso assalto com os meninos aranha na saída da Roldan, e surgiu a idéia de que os pesos poderiam resgatar as identidades perdidas dos excluidos. Em junho, tudo se concretizou, quando conheci o Gilson e Paraisópolis. Em Dezembro, eu nem sabia o que era powerlifting, tinha ouvido falar vagamente em Paraisópolis e não fazia idéia de quem era Gilson Clemente. Mas até agora eu não sei se já sabia que aconteceria, ou se intencionava muito fortemente tudo que aconteceu.
Tinha sido um ano bom. Um ano de grande aprendizado, como todos onde se passa por mortes e re-nascimentos radicais. Não muito diferente deste ano de 2007. Talvez um dos anos mais produtivos e também destrutivos. Se foi em 2006 que descobri o powerlifting, foi em 2007 que me tornei uma powerlifter para valer, fiz as maiores marcas da categoria e conquistei um lugar entre as melhores do país e do continente na minha modalidade. Foi também o ano em que ganhei credibilidade internacional no esporte, em que meus textos passaram a ser lidos por muita gente e em que construí uma reputação na comunidade mundial do esporte. Foi o ano em que, sei lá como, montei um projeto de midia esportiva que deu certo sozinho, o Portal do Ferro, sem marqueting e sem quase nada além de alguns textos e entrevistas. Foi o ano, enfim, em que, de um jeito mais intuitivo do que planejado, consegui transferir um capital adquirido por anos de atividade intelectual em um campo para outro. Nesse sentido, 2007 foi o ano de construir e botar para funcionar – 2008 é o ano de dirigir esse estranho veículo.
Em 2007 fiz todas as besteiras possíveis em termos de treino e competição, mas mesmo assim terminei o ano quebrando um recorde mundial absoluto. Treinei errado, entrei em CNS overtraining e saí dele, quebrei a perna possivelmente por erros de enfaixamento e superfície de tablado, quase morri com uma barra com 100kg arremessada no rosto por não instruir corretamente meus amigos quanto ao efeito tranco do equipamento, tomei esteróides inadequados que não me deram força nenhuma e só causaram graves efeitos colaterais. Fiz tudo errado e no fim deu tudo certo. Todos os erros que cometi poderiam não ter sido cometidos. Eu poderia atribuir a culpa a outros – afinal, só tomei os esteróides errados porque fui ameaçada quanto ao anti-doping. Mas isso é bobagem: tudo que fiz foi decisão minha. Sempre tive o conhecimento suficiente para não ter cometido cada um destes erros. Mesmo assim, não me arrependo deles. Cada um deles correspondeu a uma over-dose de aprendizado.
Em 2007, entrei de cabeça em militâncias e guerras esportivas. Sofri muito por agressões e decepções, me machuquei e machuquei outros. Vi meus projetos mais visionários se desmanchando sob conflitos políticos ou hesitações pessoais. Mais uma vez, cometi erros que venho cometendo desde sempre em nome de causas maiores. Mais uma vez, sofro, sangro, mas não abro mão da esperança num mundo melhor e será pela via dos projetos sociais esportivos.
Assim, 2007 foi o ano das tentativas e erros. Agora, muito mais pé no chão e mais realista no esporte, com algum patrocínio e muita responsabilidade com apoios e companheiros, não tenho mais tanto espaço para brincar. Será um ano difícil, esse de 2008, mas um ano de colher resultados.
Todas as relações – profissionais ou esportivas, o que agora é algo que se mistura – mudaram. Aprendi a falar de grana e termos de troca antes de viajar nos sonhos, que sempre são mais meus do que do parceiro. Aprendi a controlar alguns impulsos, mas também meu desejo de troca e minha espontaneidade. Tudo tem um preço e, nesse mundo em que a grande maioria ainda se conforma a sistemas éticos muito diferentes do meu, esse nível de deliberação e controle é necessário, não tem jeito.
Nesse ano de 2007 conheci minha alma gêmea, meu anjo, meu cúmplice e meu parceiro. Vivi o maior amor da minha vida, e o perdi para um sistema de valores assassino, que o castrou e arrancou de mim. Essa foi a maior de todas as dores do ano. Mas no fundo da cabeça, por trás da pragmática resignação, há a esperança de que a vida ainda possa ganhar da morte, que ele um dia re-nasça do horror socialmente imposto e venha cumprir seu destino de felicidade ao meu lado.
Nesse final de ano, depois que a barra caiu no meu rosto, aprendi muita coisa sobre as pessoas do meu entorno. Acho que poderia resumir tudo dizendo que fiquei mais em paz com minha condição de estrangeira e aceitei que pertencimento, para valer, não é para mim. Não nessa vida. E que tudo bem – pertencimento não é uma condição para a felicidade e nem mesmo para a satisfação de necessidades básicas. Só fica faltando algo... O não-pertencimento assumido dá mais tolerância, mas cria mais limites. Essas cercas elétricas que construi me deram grande alívio. Tenho agora uma porção de relações bacaninhas, sei onde cada um pode chegar, não confio minha intimidade a eles e tenho a consciência limpa de não estar agindo com hipocrisia ou falsidade. E tenho meia dúzia de amigos de verdade.
Acima de tudo isso há o sangue. O sangue do meu sangue, minha filha, minha Rosa dos Ventos, o centro do meu sistema de significados. Meus irmãos, meu sangue, meio eu, meio outro, às vezes mais eu, às vezes mais outro. E meus pais, estas duas esfinges simbólicas que nunca decifrei, mas de onde jorra esse sangue que une as únicas relações insubstituíveis da minha vida.
Assim, 2008 começa diferente de outros anos, eu aqui longe, em Peruibe, com a segurança um pouco melancólica mas muito guerreira de que está tudo no lugar. No lugar certinho para uma guerra complicada, mas que eu sei, como nunca soube com tanta certeza, que vou ganhar.
Barra pronta para Marilia Coutinho. É minha.