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29 December 2007 @ 10:26 pm
Sequestro e lágrimas  
 

Quatro horas da manhã. Eu havia me deitado no meu horário de sempre e campainha e vozes eram atípicos. Pensando bem, parece que foram precedidos de celular tocando, mas o som vinha de longe... Vinha mesmo: deixei o celular na sala.

Fui até a sala, sem acender a luz e perguntei do que se tratava. Os seguranças do condomínio não se identificaram e perguntaram se eu estava bem. Pensei bem e sei lá por que respondi "não". Não, não estava, já que estava sendo importunada às 4 da manhã. Então ouvi a voz do meu pai perguntando a mesma coisa. Sem saber muito o que pensar, mas cogitando coisas feias (como a possibilidade de ser um sequestro), perguntei: "Dad, what’s going on?". Meu pai, meio surdo, não entendeu. Gritei: "DAD, WHAT’S GOING ON???" Já indo para fora. Então ele me disse que estavam todos tentando falar comigo pelo celular e eu não atendia. Putz... Que ele e minha mãe haviam sido abordados por um telefonema a cobrar por indivíduos que expuseram a voz de uma moça chorando e disseram que era um sequestro: haviam me sequestrado e iam me matar. Não deram nomes nem localização. Minha mãe tentou argumentar com o "sequestrador" enquanto meu pai localizou a polícia. Foram orientados para tentar me localizar. Putz... Sem me achar pelo celular, ele veio até minha casa, não sem antes ligar para irmãos, vizinho e ex-cunhada. Putz...

Morri de culpa, claro. Mas no dia seguinte os diálogos foram interessantíssimos. Eu, que penso que meu pai nem sabe direito o meu nome, me dei conta de que ele presta mais atenção nas coisas do que eu imagino. O comentário dele para minha mãe, depois de se assegurar que era tudo falso, foi o seguinte: "é, pensando bem, não poderia ser ela mesmo. Ela jamais estaria chorando, e sim esmurrando os sequestradores". Minha mãe, a quem às vezes acuso de falta de lógica, conduziu uma verdadeira aula de lógica formal com o bandido. Covardia: o sujeito deve ter crescido sem blocos de encaixe e outros brinquedos educativos com os quais criamos seres argumentativos como nossos filhos e ficou todo confuso. Dizia que "infelizmente, teremos que matar sua filha". Ao que minha mãe respondia: "ok, nesse caso, qual o seu ganho? Você fica sem o dinheiro, eu sem a filha e você com um problema a mais". Era areia argumentativa demais para o caminhãozinho de um mero delinquente inculto. Essa linha só poderia ser alimentada por sofisticadas considerações associadas à teoria de riscos e um comando razoável de lógica dedutiva. Ele não tinha resposta.

Está certo que esse golpe é batido demais, que os bandidos deram azar de se deparar com pessoas muito cultas, mas meus pais me surpreenderam com o controle da situação que mostraram na prática. E com a tranquilidade com que, depois, simplesmente voltaram para a cama.

Eu é que fiquei depois pensando. Eu tinha pego vários filmes tristes dias antes porque não aguento mais essa incapacidade de viver minha própria tristeza. Parece que algo em mim está torto e no lugar de alguma expressão de dor, e especialmente a abençoada capacidade de chorar, só expresso raiva e cinismo. E no fim, uma abissal apatia. Onde foram parar minhas lágrimas? Nem Hotel Rwanda conseguiu arrancá-las de mim. Só a menina do piercing, semanas atrás, catalizando uma cascata de dores e revoltas. No fundo de tudo Angel, a dor pela dor dele, a dor pelas perdas dele e a insuportável ausência dele. A única coisa que não fazemos juntos, olhos nos olhos ou na telepatia, por prazer ou por dor, é chorar. Ele chora as minhas lágrimas – eu só sei sangrar.