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25 December 2007 @ 03:22 pm
Cabeça vazia e o espelho invertido do ódio – paz para você  
 

Usei esses dois dias de Natal para fazer algo que achei que me resolveu um dilema antigo: como lidar com situações onde, pelas relações institucionais, os conflitos se transformam em relações pessoais negativas? Ódios, ressentimentos, inveja e coisas ainda piores permeiam as relações entre os participantes das comunidades dos esportes, da ciência, das profissões em geral ou qualquer rede social organizada com um projeto que hierarquize a posição dos membros. Se essa hierarquia é baseada em poder político, em carisma, em mérito ou um algum protocolo burocrático, não sei se importa muito. Até hoje o que eu conheço de perto mesmo é a ciência – nas instituições de pesquisa pública no Brasil, Estados Unidos, América Latina e Europa – e o esporte.

Na minha experiência, as relações mais destrutivas ocorrem num contexto de intimidade. Isso é possível em comunidades pequenas, que cultivam o “mito” da amizade (“somos todos amigos”) ou quando se forma um corpo social híbrido onde junto com relações positivas (chamemos provisoriamente de amizades), arrastam-se as negativas – para os mesmos ambientes, sejam presenciais ou virtuais.

Agora, no fim do ano, não vejo nenhum dos meus verdadeiros amigos que não esteja sofrendo e drenado por conta de tais relações.

O que fazer?

Uma das soluções é não deixar que surjam conflitos – isso é impossível. A não ser que sejamos isentos de ética e de interesses (no sentido mais amplo possível), conflitos existirão inexoravelmente. Sempre haverá aquele interessado em fazer uso do nosso esforço em proveito próprio, que procurará manipular dados e resultados para forjar falsas verdades ou consensos que lhe favoreçam, e outras coisas contra as quais os espíritos munidos de sangue nas veias e honra no coração não conseguem se calar.

Partindo desse pressuposto, a outra solução seria jamais permitir que o conflito se transforme numa relação pessoal (que será negativa). Isso também não é possível, pois não depende de nós. Mas já é possível começar a vislumbrar um caminho. Não é possível porque a reação do nosso oponente, quase sempre, envolverá emoções negativas. O mais civilizado e frio deles, no mínimo se sentirá frustrado se fracassar, defensivo diante de um resultado dúbio e prepotente diante de uma vitória. Os menos civilizados, infelizmente a grande maioria, sentirá ódio e inveja.

Do mais cético ateísta ao mais supersticioso místico, todos concordam que estes são dois sentimentos de grande poder mobilizatório. Não precisamos ir muito longe no campo da especulação esotérica para entender que ódio empurra a pessoa para a ação, nubla a razão e configura uma catástrofe pedindo para acontecer. Que quase sempre acontece.

Diante do ódio e da inveja alheia temos várias opções: a primeira é reagir. Agredir de volta, com raiva. A metáfora com a bomba de urânio é perfeita: massa crítica de um lado, massa crítica do outro, estopim no meio e uma incontrolável reação em cadeia de gigantesco poder destrutivo. De todas as reações, essa é a pior.

A segunda é a indiferença. É quase tão ruim quanto a primeira. A indiferença, para valer, é a total desqualificação do adversário. A leitura dele é: “você é tão insignificante para mim que não o considero – você inexiste no meu universo de possibilidades”.

A terceira opção é discutir racionalmente. É bem melhor, mas costuma ser ineficiente. É preciso lembrar que o “outro” está encharcado de emoção e a razão tem baixa penetrabilidade. Um tempo depois é possível, com alguma sorte, que ele ou ela esfrie o suficiente para interpretar nosso gesto como positivo, mas não devemos contar com isso.

A quarta opção foi a que adotei e agora se trata de esperar o resultado: fiz contato com meus desafetos – pessoas que me odiaram e odeiam mais ou menos silenciosamente ou com discursos pouco articulados – e, primeiro, admiti que tivemos um conflito. Não julguei o conflito: apenas constatei que o conflito sinaliza uma incompatibilidade e que, portanto, não precisamos ficar tentando ser amigos. É uma falsa idéia de que a única relação positiva que existe é a amizade. Então propus que abríssemos mão desse esforço, reconhecendo nossas diferenças e pouca disposição a ter um relacionamento afetivo. Sugeri em seguida que não ser amigos, não significa ser inimigos. Pelo contrário: podíamos ter relações civilizadíssimas e até cooperativas num contexto institucional, com respeito e boa vontade, sem necessariamente afeto. E finalmente desejei, sem nenhuma hipocrisia, um ano novo pleno, pacífico e bem realizado a eles.

Não tentei racionalizar o conflito – em todos os casos, seria uma discussão estéril. Apenas me mostrei munida de bons sentimentos, e para isso tive que senti-los. Em quase todos os casos, dentro de mim isso foi um processo que passou do medo, passando pela irritação, depois pela pena, condescendência e finalmente a um benigno afastamento tolerante. Duas dessas pessoas me rogaram sérias pragas – por escrito ou verbalmente. “Pragas” grudam quando temos medo e acreditamos nelas. Inicialmente eu tive. Uma me amaldiçoou com o fim da minha carreira esportiva, ao não ter mais onde competir e com uma solidão e auto-destruição solitária. A outra me desejou a destruição física, mesmo.

Não vou me defender contra nenhuma delas. Todo golpe pode ser neutralizado usando a própria força do ataque para dissipá-lo. Aprendi isso no Tai-chi. Não é que o cara soque e como conseqüência se auto-soque. Mas, na ausência do alvo, o soco cai no nada. E assim aprendi que com a mente vazia, qualquer ataque nesse campo cai no nada.

De novo, isso serve aos céticos e aos místicos: aos céticos, a mente vazia quer dizer que a maldição se transforma só numa expressão de raiva do outro, que observamos à distância e permitimos que esfrie sozinha, sem nossa intervenção. Aos místicos, a mente vazia quer dizer que a maldição ou “ataque energético” vem com tudo, mas não encontra alvo e perde a direção.

O que acontece com ele, eu penso, é apenas se dissipar. Há quem diga que volta, como nosso ombro sofre se socamos com muita força uma parede de concreto, pois o concreto nos soca com a mesma força.

Não sei e honestamente não me importa.

Só sei que depois de enviar esses e-mails me senti incrivelmente em paz e num novo estágio de auto-determinação e poder sobre minha vida. Finalmente, me senti fora de um jogo que me incomodava muito; finalmente, me senti desobrigada a entreter relações pessoais por ser “politicamente correto” ser amiguinho; finalmente, acho que ajudei a espalhar paz de verdade, que necessariamente implica serenidade e aceitação.

E não é isso que importa?

 

Marilia