Silvia era um porquinho-da-india que tinha lá em casa quando eu era pequena. Não lembro quando a Silvia chegou, mas lembro que cresceu um bocado. Também lembro que me foi atribuída a função de tratar dela.
Silvia morava numa gaiola improvisada feita de madeira e tela de plástico verde. Não sei quem fez. Não tinha uma bandeja para trocar o forro. Eu nunca soube direito limpar aquilo. A gente não dava ração para a Silvia, e sim capim. Naquela época, tinha muito terreno baldio no bairro e eu saía e pegava feixes de capim.
A Silvia era um porquinho-da-india dócil e simpático. Se deixava pegar no colo e acho que até curtia ser liberada da gaiola, que devia ficar um nojo. Ela ganhou esse nome porque uma hora ela deu para soltar uns silvos muito altos – daí “Silvia” (porque “silvava”). Foi minha mãe que inventou o nome. Conjecturava-se que era porque ela havia entrado no cio.
Arrumar um macho para cruzar com ela era fora de cogitação. Havia uma historia de horror na família sobre um casal de ratos brancos que gerou uma multidão de ratinhos, eventualmente doados – todos – para um biotério.
Não gosto muito de pensar nessa parte, mas acho que esse também foi o destino da Silvia, que uma hora sumiu lá de casa. Eu não pergunto.
Mais tarde eu virei bioquímica e conheci biotérios. Tenho horror deles.
