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12 December 2007 @ 05:41 pm
Foto de casamento  

Há quatro dias eu vi a foto. Uma foto de casamento, todos vestidos com aquelas fantasias estranhas, brilhantes e plastificadas. Das sete pessoas, todos riam ou sorriam exceto o casal à direita. Angel e sua esposa. Olhei para ela, uma mulher de seus 37 anos, parecendo 60 e cansada de viver. Uma tristeza sem intensidade nos olhos. O corpo de alguém que desperdiçou uma encarnação, mumificada, enclausurada na ausência de risco e de vida. Ao lado, Angel. Não o meu Angel, forte, mito esportivo, transbordando vida e potência, assustadoramente centrado em seu poder. Não: um homem derrotado, sem brilho, sem aura. Morto. Seus lindos olhos amarelos não tinham cor. Um arrepio de horror me percorreu a espinha e mudei de página.

Fechei os olhos e soube imediatamente: ele completou o último passo de sua neutralização humana. Tomou sua overdose de Zyprexa espiritual. Meu Angel morreu. Enquanto ele sofria e chorava a minha perda, ao se forçar essa abdicação trágica em nome de uma moral que sequer compreende direito, eu podia ampará-lo. Podia repetir suavemente que mesmo que se negasse o calor do meu corpo, sempre teria o calor muito maior do meu coração. Agora, no entanto, a destruição se completou: Angel destruiu sua principal identidade, a de atleta, de portador da maior força interior que já vi num ser humano.

Angel era um desses atletas que levanta peso para além das fronteiras do visível. Angel era um transcendente. Talvez por isso tenha sido tão excepcional em seus dias de vivo. A ele devo o início do meu aprendizado de foco, meu projeto samurai e os passos que hoje trilho quase com segurança.

Se eu soubesse chorar, começaria nesse momento. Por ele e por ela. Finalmente, conseguiram: nesse estranho pacto de amor e ódio, se destruíram. Por exigência dela, ele abandonou o esporte e, nesse ato, matou-se. Sobrou uma sombra. Um espectro do que foi o grande Angel Guerriero vai circular por aí, sem tristeza, nem alegria, pois a humanidade lhe foi sugada. Nossos projetos visionários, eu herdei. Em nome da memória do grande homem que me ensinou a intimar minha força interior, que me ensinou a ter esperança novamente e, mais que tudo, me ensinou a amar, eu os levarei adiante.

A cada levantamento perfeito que eu, com muito afinco e perseverança, juro realizar com os anos, dedicarei o momento sublime de êxtase e plenitude a ele. A cada novo talento que nosso esporte conquistar, a cada novo sorriso no rosto de um jovem levantador, dedicarei silenciosamente o mérito a ele.

Por alguns meses, caminhamos juntos. Foi meu maior companheiro, cúmplice, amigo e meu grande amor. Agora, como sempre foi na vida, volto a caminhar sozinha.

Sinto uma paz melancólica. Tenho o direito de viver o luto pela morte daquele que foi minha bússola e estrela-guia.

Mas... ainda não contei a última coisa que vi, naquele momento em que o estranho filminho passou na minha cabeça, confirmado ontem à noite por ele, perplexo com minha clarividência. Ele morreu – pela primeira vez. Mas re-nascerá em alguns anos. Eu sei quantos. Quando o momento chegar, eu estarei ao lado do buraco escuro onde ele se encolheu agora. Preciso me preparar para esse momento. Tenho que ser forte, mãos firmes como antenas de energia yang. Pois quem sairá desse buraco é apenas um fiapo do que hoje é o grande homem que por algum tempo foi meu anjo. Pesará pouco, em todos os sentidos. Mas as forças da escuridão pesam, e a elas eu precisarei vencer.

Quando Angel desistiu de si mesmo, me entregou suas asas e sua espada. Gosto dela – é como se tivesse nascido comigo. Sempre fui uma boa esgrimista.

Cumpra seu destino, meu amor. Minhas asas estarão sempre abertas sobre você e minha espada em sua defesa. E no tempo certo, minha mão estará ali, ao seu lado, para resgatá-lo desse inferno onde você precisou se recolher pelos próximos anos.

 

Marilia