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30 July 2006 @ 01:47 pm
Ódio  

Ontem vi um cara que eu realmente odeio. Vi pela segunda vez em um mês. Vi sendo derrotado em um evento esportivo. Vibrei com a derrota dele, foi bom, nossa! Nem sei descrever direito a sensação. Há duas semanas, vendo-o com raiva, frustrado, jogando a medalha de consolo no chão, senti... senti... sei lá o que senti, mas senti que a dor dele era algo que me era devido, algo que me pertencia. Como se fosse parte do pagamento por uma dor muito, infinitamente maior, que ele me causou. Ontem o vi novamente ser derrotado. Novamente senti que a derrota dele me pertencia. Mas há um lado sombrio desse sentimento. Senti nausea, achei que iria vomitar e uma dor de cabeça muito forte. Isso é o ódio. O ódio puro, daqueles que escorre pelos ouvidos e nariz da gente, como uma remela venenosa e amarga.

Mauro tentava desviar minha atenção e uma hora me disse com calma, daquele jeito que eu conheço quando ele quer falar algo sério: “Má, não dá pra ser assim... Você vai ver o cara muitas vezes, somos do mesmo esporte, tem um monte de evento, não pode ficar desse jeito toda vez, se não, como é que vai ser?”.

Voltei dirigindo para casa remoendo meu ódio, como se fosse uma núvem tóxica dentro do carro. Entrei em casa, abri meu computador e mudei de astral com um e-mail do meu amor.  Puxa, que bom: o ódio foi embora.

Que nada: acordei de manhã e estava ali, aquela núvem tóxica novamente, ocupando o quarto. E eu cheia de trabalho. O que fazer? Liguei para Ana, que é sábia e manja dessas coisas de exorcismo emocional.

Ela me sugeriu um exercício no qual eu imaginasse o cara comigo em um lugar muito bonito, com um lago e um barquinho. Aí o cara entraria no barquinho e eu deixaria que o barquinho fosse navegando calmamente até se perder no infinito.

Tentei – juro que tentei. Mas, no caminho, apareceu um enorme e poderoso monstro marinho cheio de dentes predadores com os quais abocanhou o barquinho e dilacerou o meu desafeto, reduzindo-o a carne moída. Putz... matei a metáfora.

Outra sugestão: queime todos os objetos dele ou que se relacionam a ele na sua casa. Sim, restam alguns! Achei uma camiseta que ele havia me dado e alguns CDs, uma escova de dentes, umas coisas assim. Levei tudo para o fundo do quintal, com jornais e álcool e taquei fogo. O cheiro tóxico do plástico queimado me deu uma dor de cabeça infernal e meu cabelo está cheirando fogueira. Que merda... Pior é que tem uma pedrinha colorida no meio, que obviamente não vai pegar fogo, um treco ultra brega que ele me deu uma vez.

O que fazer?

Galahad me disse: “jogue fora ou recicle”. Isso, boa idéia: ponho tudo que sobrou num saco de lixo junto com coco dos cachorros e papel higiênico usado. Ele riu e diagnosticou: “é, não é muito fácil esse negócio, não...”.

Ódio é muito ruim! Quem dá receitinha de auto-ajuda sobre o perdão aos inimigos é certamente charlatão, porque estou convencida que isso requer um processo iniciático complexo em mosteiros tibetanos e anos de prática meditativa.

Sei lá... Penso que, na minha incompetência espiritual, a saída é mesmo recorrer à única ferramenta que tenho habilidade para manejar: minha razão e lógica. Preciso entender as raízes mais profundas desse meu ódio e analisar, organizar e hierarquizar as origens desses ferimentos que atribuo ao meu desafeto. Tenho certeza que vou descobrir lá coisas que não queria olhar. E aí talvez eu me liberte dessa fúria destrutiva que se apossa de mim cada vez que eu o vejo.

Enquanto isso, fui abrindo arquivos *.jpg com imagens – centenas – que tinha dele. Ele comigo, com a Mel, com muita gente. Fui cortando as fotos, me sentindo uma verdadeira stalinista, refazendo o passado, deletando personagens. Mas nesse exercício descobri que criei imagens belíssimas de minha filha escondidas nesses retratos. Um poço inesgotável de amor e beleza no meio de um ódio sujo e raso. Estava lá o rosto dela, o sorriso dela, os cabelinhos dela... Totalmente independente. Quando salvei as imagens cortadas, ele havia sumido...



Marilia

BodyStuff

 
 
( 2 comments — Leave a comment )
carloscaramuru[info]carloscaramuru on July 31st, 2006 03:10 pm (UTC)
Ódio por vermes...
Oi Marilia,

De alguma forma compartilho com este seu sentimento e depois de muito viver e tentar entender meus ódios descobri uma coisa:

EU ODEIO VERMES!!!

Desafetos, desamores, concorrentes, inimigos (leais), não são nossos objetos de ódio.

Odiamos aos vermes em uma proporção inversa a sua mediocridade. Quanto mais simples e insignificante o verme... mais o odiamos.

Odiamos o fato de que um ser muito inferior em moral, espírito e até mesmo inteligência consegue em determinados momentos de nossas vidas nos prejudicar ou até mesmo nos passar a perna.

Auto-ajuda de perdão hahahaha... quando muito o caminho do esquecimento pode ser reconfortante, mas como esquecer um ódio que vemos sempre??? Uma das três pessoas que mais odeio neste mundo sempre passa pela minha frente e não consigo até hoje esconder o meu olhar para ela de: te pego, te seqüestro, te torturo, coloco um rato morto em seu organismo (nem conto como), te enterro viva e filmo sua morte longa e dolorosa por infecção generelizada... eita que olhar é este meu cruzes!!!

O segredo da minha purificação é me divertir com o insucesso deste objeto de ódio. Até hoje não vi um só caso que não se confirmasse do famoso "aqui se faz aqui se paga". O lance é lembrar que a "vingança é um prato que se come frio" e esperar. Como o exemplo desta pessoa que citei hoje é uma mulher abandonada pela família, na merda, sem emprego, sem credibilidade, sem créditos e até seus peitos antes fartos e empinados ficaram a maior merda. E eu... continuo de pé e em pé.

Vai por mim Marilia que este tipo de pessoas sempre nos dão a alegria de nunca "subirem" realmente na vida mesmo que em determinado momento tenham nos pisado para tentar nos usar como degraus. E no final de tudo até mesmo depois de sua morte estes não "sobem".

Aos poucos recorto as "fotos" que me ligam a estas pessoas e o que sobra é a parte inabalável de minha vida. Sobra quem sou e o que sou. E isto eles jamais serão (e nem entenderão).

Beijão do Carlão.
[info]anacardilho on July 31st, 2006 07:03 pm (UTC)
Dei muita risada com a morte da metáfora... desafeto morrendo dilacerado por um mostro marinho... de qualquer forma acho que a idéia de um ritual pode ter ajudado vc pelo menos a fazer uma limpeza em casa, não devemos guardar coisas de pessoas que não nos são mais queridas, muito menos uma escova de dentes de alguém que desejamos é quebrar os dentes com um soco bem dado.
mas o final do texto, com aquela foto tão linda da mel, mostra que o ódio e o desafeto não são nada perto da sua capacidade de amar. vai passar, com ou sem barquinhos e cenas de titanic... e isso vai passar porque vc tem mais no que pensar, vc tem mais no que se concentrar e manter seu olhar. quem sabe na próxima competição a bênção da indiferença esteja ali ao seu lado e vc não sinta mais nada: nem ódio, nem mesmo curiosidade pra ver se o desafeto pode ganhar ou perder de novo.. aliás, se ele já sofreu duas derrotas diante de vc ele é que deve estar se mordendo de ódio... é muito difícil enfrentar uma competição sob os olhos críticos de alguém que sabe fazer, que sabe do que fala como vc. acho que quando ele chega nessas competições e vê vc ele já se sente um perdedor, ele já sabe que vai se sair mal...como uma maldição, como um olhar brochante, como os olhos mortais da medusa.
beijo, ana cardilho
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