Ontem vi um cara que eu realmente odeio. Vi pela segunda vez em um mês. Vi sendo derrotado em um evento esportivo. Vibrei com a derrota dele, foi bom, nossa! Nem sei descrever direito a sensação. Há duas semanas, vendo-o com raiva, frustrado, jogando a medalha de consolo no chão, senti... senti... sei lá o que senti, mas senti que a dor dele era algo que me era devido, algo que me pertencia. Como se fosse parte do pagamento por uma dor muito, infinitamente maior, que ele me causou. Ontem o vi novamente ser derrotado. Novamente senti que a derrota dele me pertencia. Mas há um lado sombrio desse sentimento. Senti nausea, achei que iria vomitar e uma dor de cabeça muito forte. Isso é o ódio. O ódio puro, daqueles que escorre pelos ouvidos e nariz da gente, como uma remela venenosa e amarga.
Mauro tentava desviar minha atenção e uma hora me disse com calma, daquele jeito que eu conheço quando ele quer falar algo sério: “Má, não dá pra ser assim... Você vai ver o cara muitas vezes, somos do mesmo esporte, tem um monte de evento, não pode ficar desse jeito toda vez, se não, como é que vai ser?”.
Voltei dirigindo para casa remoendo meu ódio, como se fosse uma núvem tóxica dentro do carro. Entrei em casa, abri meu computador e mudei de astral com um e-mail do meu amor. Puxa, que bom: o ódio foi embora.
Que nada: acordei de manhã e estava ali, aquela núvem tóxica novamente, ocupando o quarto. E eu cheia de trabalho. O que fazer? Liguei para Ana, que é sábia e manja dessas coisas de exorcismo emocional.
Ela me sugeriu um exercício no qual eu imaginasse o cara comigo em um lugar muito bonito, com um lago e um barquinho. Aí o cara entraria no barquinho e eu deixaria que o barquinho fosse navegando calmamente até se perder no infinito.
Tentei – juro que tentei. Mas, no caminho, apareceu um enorme e poderoso monstro marinho cheio de dentes predadores com os quais abocanhou o barquinho e dilacerou o meu desafeto, reduzindo-o a carne moída. Putz... matei a metáfora.
Outra sugestão: queime todos os objetos dele ou que se relacionam a ele na sua casa. Sim, restam alguns! Achei uma camiseta que ele havia me dado e alguns CDs, uma escova de dentes, umas coisas assim. Levei tudo para o fundo do quintal, com jornais e álcool e taquei fogo. O cheiro tóxico do plástico queimado me deu uma dor de cabeça infernal e meu cabelo está cheirando fogueira. Que merda... Pior é que tem uma pedrinha colorida no meio, que obviamente não vai pegar fogo, um treco ultra brega que ele me deu uma vez.
O que fazer?
Galahad me disse: “jogue fora ou recicle”. Isso, boa idéia: ponho tudo que sobrou num saco de lixo junto com coco dos cachorros e papel higiênico usado. Ele riu e diagnosticou: “é, não é muito fácil esse negócio, não...”.
Ódio é muito ruim! Quem dá receitinha de auto-ajuda sobre o perdão aos inimigos é certamente charlatão, porque estou convencida que isso requer um processo iniciático complexo em mosteiros tibetanos e anos de prática meditativa.
Sei lá... Penso que, na minha incompetência espiritual, a saída é mesmo recorrer à única ferramenta que tenho habilidade para manejar: minha razão e lógica. Preciso entender as raízes mais profundas desse meu ódio e analisar, organizar e hierarquizar as origens desses ferimentos que atribuo ao meu desafeto. Tenho certeza que vou descobrir lá coisas que não queria olhar. E aí talvez eu me liberte dessa fúria destrutiva que se apossa de mim cada vez que eu o vejo.
Enquanto isso, fui abrindo arquivos *.jpg com imagens – centenas – que tinha dele. Ele comigo, com a Mel, com muita gente. Fui cortando as fotos, me sentindo uma verdadeira stalinista, refazendo o passado, deletando personagens. Mas nesse exercício descobri que criei imagens belíssimas de minha filha escondidas nesses retratos. Um poço inesgotável de amor e beleza no meio de um ódio sujo e raso. Estava lá o rosto dela, o sorriso dela, os cabelinhos dela... Totalmente independente. Quando salvei as imagens cortadas, ele havia sumido...
Marilia
BodyStuff