(Nós, que nos amávamos tanto, de Ettore Scolla...)
A era das lâmpadas e a grande aranha
Hoje acordei assustada e lembrei do meu sonho. Eu fui confinada a um local com diversas salas ou compartimentos, cada um com sua tarefa. Num deles eu deveria nadar. Meu deus, por que nadar tanto? Já não tenho gordura corporal, como posso nadar tanto, sem comida, e perder ainda mais minha força? Mas era isso, uma grande sala, apenas uma piscina olímpica e nadar – até que um sinal fosse dado.
Então fui transferida para outra sala onde minha roupa deveria estar. Alguma roupa, pois eu estava nua e com frio. Em vez disso, aranhas. Grandes aranhas caranguejeiras, que, ao contrário das que conheço, faziam teias que cobriam todo o ambiente e escorregavam por elas. Eu queria afastar alguns fios. Até que no alto, alguém escancarou uma porta entre-aberta e lá estavam elas: uma colônia inteira de grandes caranguejeiras.
Elas tinham fome, não havia luz.
Imediatamente lembrei da origem do universo segundo Tolkien e da era das lâmpadas. No inicio, quando os Valar entraram no mundo (Arda), a luz era difusa. Então elas foram concentradas em duas lâmpadas: Illuin (azul do céu) e Ormal (alto dourado). Aule criou duas torres onde foram colocadas as duas lâmpadas sagradas, que iluminavam tudo.
Mas Melkor, o único dos Ainuir que dissonava com Eru Illuvatar, destruiu as lâmpadas. Depois disso, Yavanna criou duas árvores, Telperion (a árvore de prata) e Laurelin (a árvore de ouro) na terra de Aman, que também iluminavam tudo. Mas então algo horrível aconteceu: Melkor, com a ajuda de um espírito maligno chamado Ungoliant, destruiu as duas árvores. Ungoliant quer dizer, em Quênia ou Sindarin, “a aranha negra do terror” ou “a tecelã da melancolia”. Ungoliant sugou a seiva de Telperion e Laurelin depois que Melkor as mutilou.
Sonhei com as aranhas, sonhei com XX mutilando nossas árvores e senti uma grande confusão novamente: meu celular não parava de tocar em busca de um Eduardo qualquer, que deve tê-lo clonado.
Onde eu estou?
Lembrei de minhas duas Polyscias, ou árvores da felicidade. A Polyscia fruticosa (macho) amanheceu dobrada, parecia doente. A P. guilfoylei (fêmea) estava bem, com a copa toda espalhada sobre a outra. Protejo minhas Polyscias de formigas, não de aranhas, que no mundo real não sugam plantas, pois são carnívoras. Minhas Polyscias não emitem mais nenhuma luz. Ficam lá, do lado da porta, esperando que eu lhes diga o que fazer. Eu também não sei.
A bússola
Ontem XX me disse que não devolverá a bússula que lhe dei. Não teria por que: tudo que lhe dei, toda minha energia, todo meu amor, todas as partes de mim que construí com ele e nele lhe pertencem, para sempre. Ele era minha bússula. Hoje tenho na bolsa uma igual à dele, mas ela é maluca: não aponta sempre o mesmo Norte. Fica ali, no fundo da bolsa. De vez em quando eu olho na esperança de algum Norte, mas não confio mais nela. Como confiar em bússolas? Se elas também perdem o Norte?
A camiseta
Anteontem devolvi a camiseta de XX, lavada, sem cheiro, sem resquícios de seu suor, que impregnou minha pele por tantos dias. Mas esqueci de contar: dormi com ela, já limpa. Parte do meu cheiro, células da minha pele e minhas midi-chlorians. Para garantir mais limpeza, ele precisa lavar isso bem lavado.
O celular de vida própria
Deve ter sido clonado. Odeio essas coisas – celular que faz coisas que não deve fazer. O estranho é agora fazer coisas bem ruins e negativas, depois de um longo período em que era apenas mais uma expressão da antena que existia entre XX e eu, quando emitia “beeps fantasmas” e por onde eu ouvia a voz dele.
As forças da escuridão
Diz minha sábia Mel que este é um mundo ainda basicamente dominado pelas forças do Mal, da escuridão, do retrocesso. Que quando geramos um pouquinho de luz, a escuridão se torna mais densa e se fecha em torno de nós. Amor é assim, amor é esse pequeno fósforo aceso no escuro da dor. Mas rapidamente os agentes dela sopram essa chama frágil que se apaga, deixando apenas um fantasma de sua luz no fundo da nossa retina. Não pode iluminar mais o mundo – só nosso passado, nosso mundo interior, e mesmo assim de forma tão melancólica.
O que será de nós agora? Com tantas aranhas, escuridão se alastrando, forças se dissipando, um mundo devorado pelo caos da estagnação? O que será de nós, que nos amávamos tanto?
Marilia