Sempre gostei de cobras. Acho cobras umas obras primas, coisa bem feita e bem acabada. Aqueles telefoninhos da telesp nas jararacas e parentes, então, são um primor. As cobras sempre me intrigaram muito, especialmente porque não têm pernas.
Outro dia assisti um vídeo caseiro onde meu pai exibia uma sei-lá-que que tinha apanhado na casa do Juquehy. A cobra se contorcia, revoltada e várias coisas aconteciam na frente da câmera. No fundo estava eu, com uns quatro anos, o tempo todo comendo gelatina de um potinho.
Eu queria pegar cobras, mas não era indicado. Às vezes meu pai deixava, mostrando certinho onde era para apertar o pescoço dela para que ela não virasse e me mordesse. Eu também queria minha própria cobra, que, tinha certeza, eu amestraria e se tornaria mansíssima.
Uma vez meu tio Zé Luis levou a sério minha intenção e me enviou uma cobra pelo correio (!!!) numa caixa de madeira. Quando chegou em casa eu abri com sofreguidão e a cobra verde saiu enlouquecida de fome, raiva, stress e tudo mais. Eu tentei pegar e ela me mordeu. Então ela escapou pela casa, mobilizando todos que lá estavam. Mauro, meu irmão, pegou – pegou errado e ela realmente mordeu feio, saiu bastante sangue. No fim enfiaram o bicho de volta na caixa e levaram para o Butantã. Lá fomos atendidos por uma funcionária que olhou com desprezo a cobra verde, inofensiva e sem veneno e disse que não nos preocupássemos, mas que deveríamos preencher um formulário. Então, depois dos habituais dados de nome e endereço, ela passou a fazer perguntas como “teve tonturas?”, “vômito e diarréia?”, “perda de visão?”, “febre?”.
Formulário e a relação com ele ainda eram novidade para mim. Aquela coisa de percorrer todo um protocolo irracional e sem noção, com perguntas relacionadas ao envenenamento logo depois de constatar que o animal era não-venenoso, ainda era um enigma para minha jovem mente lógica. Depois fui sacando que vivemos numa sociedade assentada sobre esse tipo de base de formalidade vazia. Assim como entendi que não se pode amestrar uma cobra verde.
E ela ficou lá, entre outros tantos bichos sem veneno e venenosos.
