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29 October 2007 @ 09:48 am
Os saca-rolhas  

Bruna era apelido de “Brunnette”, uma cadelinha marrom-clara que meu pai e o Laerte trouxeram para casa acho que quando eu tinha uns três anos. Ela tinha um jeito digno de se comportar. Em tudo, Bruna era uma Lady. Se alguém estivesse lendo o jornal no chão, ela dava voltas sobre ele (estragando o papel) e se deitava na notícia. Ela era a noticia.

Lembro de quando apareceram os primeiros filhotes. Até então, eu não tinha muita noção desse processo de ter filhotes. Nem sabia como eu tinha aparecido por ali. Eu grudei minha cara no vidro da porta de correr na salinha da TV e lá estavam eles. Eram esquisitos, pareciam mal-feitos. Depois ficavam bonitinhos.

Um dia ela teve uma ninhada de cachorrinhos com um estranho defeito neurológico: eles giravam sobre o próprio eixo e assim não conseguiam mamar. Minha mãe os chamou de saca-rolhas. Era necessário sacrificar os saca-rolhas. O que era “sacrificar”? Eu não sei como fizeram, mas foram sacrificados. Não sei se foi dessa vez que sobrou o Tato (Tatorana).

Não lembro como a Bruna reagiu ao sumiço dos saca-rolhas. Ela era uma pessoa digna, sobretudo digna. E como toda lady, tinha manias e neuroses. A pior eram portas: ela ensaiava vários segundos até atravessar uma porta. Então corria para o outro lado. Me disseram que ela tinha “trauma”. O que era “trauma”?

Mais tarde eu amaria profundamente o Tato e sofreria como um cão a morte dele.

Pensando bem, todos os conceitos importantes da vida nessa fase aprendi com eles – os cães de casa.

 

Marilia