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19 October 2007 @ 12:20 pm
A porta do sótão  

Na casa dos meus pais existe um sótão. É só um quarto pequeno de teto baixo onde, quando eu era pequena, meus irmãos tinham o “escritório”. Era um lugar proibido para mim. Tenho lembranças legais do sótão. No canto esquerdo da janela o Laerte tinha desenhado uma figura sinistra, talvez um pirata, talvez um mercador medieval, mas tinha cara de mau. Tinha dragão desenhado. Em algum lugar, não lembro onde. Na parede, mil escritos, longos escritos, dos quais só me recordo de um: “quem me fez gostar de beijo? Revolução sexual e queijo”. Quem escreveu? Deve ter sido o Laerte também.

Mauro tinha projetos mais sérios, tinha umas réguas lindas de morrer, pareciam chocolate branco e eu tinha vontade de chupá-las. Anos depois, com o advento de boas calculadoras e computadores, ganhei todas essas réguas de cálculo, que guardo até hoje com o carinho que se tem pelos itens inúteis e densamente simbólicos.

Mauro também era mais regulatório: “não pode assistir novela: novela faz criança ficar burra”. “Não pode pegar em gilete: gilete faz xixi na mão de criança”. Eu transgredia tudo, menos as normas do Mauro. Pelo menos não na frente dele.

Um dia subi até o sótão tentativamente e me vi sozinha. Estiquei meu bracinho e o que havia em cima da mesa (uma tabua apoiada em dois cavaletes)? Uma gilete! Olhei aquela coisa bonita, brilhante e com um formato estranho – parecia uma chave para um porta inter-galáctica. Maravilhada, manipulei a chave do portal das estrelas. Até que me dei conta dos fiozinhos vermelhos que se formaram nos meus dedinhos gordos. Rapidamente repus a gilete onde achava que estava e me mandei, lavei a mão já bem ardida e não disse nada para ninguém. Sofri em silêncio os cortinhos que a chave do portal das estrelas fez em mim – é verdade, fazia xixi na mão de criança.

Voltei ao sótão outras vezes – acompanhada e outras vezes nem tanto.

O que mais me intrigava mesmo era uma portinha bem baixinha no canto. Essa era de uma proibição nível super hiper máster blaster – provavelmente se eu fosse pega abrindo a portinha algo muito catastrófico aconteceria. Duas vezes vi um Seujoão qualquer que nem me lembro quem era entrar lá para consertar “algo”. A portinha se abria para o escuro. Será que ele voltaria? Voltou todas as vezes.

Um dia me deixaram ver o que tinha ali. Que decepção: um monte de tabuas empoeiradas. Diz que não podia andar ali com o risco de cair pra baixo, no meio da casa.

Fui apresentada a Lewis Carrol e apareceu outra portinha na minha vida: a portinha da Alice que dava para o jardim maravilhoso. Coitada da Alice: como eu, ela não podia atravessar. Ora porque era pequena demais para alcançar a fechadura, ora porque era grande demais para passar pela porta.

Eu me sentia como Alice: no começo fui pequena demais para ter acesso à portinha e ao maravilhoso mundo que deveria existir do outro lado. Depois, fiquei grande demais para enxergar esse outro mundo.

Mas ficou ali na minha cabeça essa idéia de que existe um outro mundo, um mundo só meu por trás daquela portinha. Só não sabia como abrir a porta do jeito certo para que ela desse nele, e não no forro sujo da casa dos meus pais.

Aos 12 anos, tive a primeira manifestação dissociativa séria da minha desordem, provocada por uma crueldade infantil dentro do meu grupo social. Uma brincadeira covarde de uma garota que tinha medo de mim foi o suficiente para que eu subisse para o sótão e dele emergisse uns dois anos depois. No sótão havia pilhas e mais pilhas de revistas Times, de 1959 até 1972. Eu li uma por uma. O ano “lá fora” era 1975, mas para lá da portinha era 1959.

Do lado de lá da portinha existe um mundo vivo e cheio de acontecimentos – um mundo paralelo onde quase tudo que eu quero acontece. A chave para abrir a portinha e dar nesse mundo, e não no forro sujo, é a dor. Mas uma dor muito, muito grande, que se chama loucura.

Eu estou quase indo para lá, Angel. Lá, onde não tem formalidade social castrando nosso sexo, onde nossas filhas se pertencem e não são pivôs de chantagem alguma, onde podemos nos abraçar vendo-as caminhar na grama, descalças e felizes. Onde, debaixo de um céu sem chuva, com estrelas, lua, várias luas, planetas e o que quer que eu queira colocar nele, você me abraça e diz alto, sem garrote na garganta, “eu te amo!!”. E ri pra mim.


 

Marilia

 
 
( 4 comments — Leave a comment )
(Anonymous) on October 19th, 2007 02:49 pm (UTC)
era eu, era você
Revoluçåo sexual e queijo. Nem lembrava!
Não vai pra lá não, mina.
Não sem a fênix.
Beijo!
(Anonymous) on October 22nd, 2007 03:23 am (UTC)
Re: era eu, era você
Qualquer anjo que te empurre para dor, nao é digno do teu credo.

Esse final de semana tava estudando religiao, mais precisamente o séc XII e o ocidente. O renascimento das grandes cidades e do Intelectual da idade média. Junto com eles eu me deparei novamente com o nosso amigo Abelardo.

Os debates que ele tinha com os "gênios" de entao, e a compreensão que ele tinha sobre Deus, uma compreensão muito mais leve, muito mais calma do que os seus contemporaneos.

Por que eu estou lhe dizendo isso?

Nao acredito em nenhum Deus triste.

Nao acredito em nenhum gozo sem sorriso.

Nao acredito em nenhum anjo que traga dor.

Você nao precisa e nem merece entrar lá novamente.

Sabe o que vc precisa?

Parar de inventar asas nos outros, e reparar nas tuas. O Anjo sempre foi vc!

Voa querida.


Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise.
Blackbird singing in the dead of night
Take these sunken eyes and learn to see
All your life
You were only waiting for this moment to be free.
Blackbird fly Blackbird fly
Into the light of the dark black night.
Blackbird fly Blackbird fly
Into the light of the dark black night.
Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise
You were only waiting for this moment to arise
You were only waiting for this moment to arise.
(Anonymous) on October 22nd, 2007 03:24 am (UTC)
Re: era eu, era você

Foi o leymir... mas infelizmente a letrinha em inglês nao é minha...

mas acho que vc sabe de quem é.rs

beijao!
noiteestrelada on October 23rd, 2007 09:34 pm (UTC)
Re: era eu, era você

"Qualquer anjo que te empurre para dor, nao é digno do teu credo".
Leymir mais uma vez disse tudo. Assino embaixo.

E lembre-se: o príncipe, aquele de verdade mesmo, está imune ao feitiço da Bruxa Má do Status Quo...

Além daquelas outras coisas que conversamos...

beijos, beijos e beijos

Val.
( 4 comments — Leave a comment )