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16 July 2006 @ 07:19 pm
Mala arrumada no armário  

 

Há muitos anos uma amiga me confessou que jamais ficava em qualquer país sem uma passagem comprada para sair dele. Ela tinha muito medo de ser apanhada de surpresa por uma guerra. Ela é alemã, cresceu em parte no Brasil e viveu em muitos lugares diferentes do mundo. Naquela madrugada de inverno, tomando vinho, ficamos conjecturando de onde viria essa necessidade dela de garantir uma “saída” para uma guerra potencial tão pouco provável.

Nunca saberemos – quem sabe o passado dos pais dela com a segunda guerra, quem sabe histórias não contadas das quais ela apenas tinha um medo incerto. O fato é que passou, ela hoje têm um trabalho estável, marido e filhos no Brasil e, que eu saiba, não pensa mais em guerra.

Era uma precaução irracional, derivada de um medo crescido nas sombras do não-dito e de dores terríveis demais para serem lembradas.

A semana passada aprendi algumas imagens sobre a precaução e sobre o comportamento de rejeição a riscos. São as imagens do guarda-chuva e do para-quedas. O precavido em questão jamais sai de casa sem ambos, já que assim se protege de uma possível chuva e de uma possível queda. Metáforas para precauções que, embora muitas vezes racionais, podem se tornar um obstáculo para se viver plenamente.

Eu não sou uma pessoa precavida. Sou, como todos sabem, uma extreme risk-taker. Assumi riscos em praticamente todas as esferas da vida: abandonei carreiras e ofertas seguras, me aventurei em carreiras incertas, que exigiram investimentos de retorno duvidoso; enfrentei a ditadura, quando ela ainda existia; pixei na periferia com gente armada atrás de mim; andei de madrugada por ruas escuras do centro de São Paulo, do Rio, de Nova Iorque e de Paris; usei muita droga, sem ter idéia do que me causaria; fiz sexo de todos os tipos e tenho sorte de ter escapado daqueles anos sem AIDS; articulei e defendi idéias perigosas, ainda que sob ameaça, ainda que diante de todos os sinais de punição iminente.

Alguns acreditam que sou corajosa. Outros acham minha vida excitante, como um filme de Indiana Jones seria. Outros me acham totalmente porra-louca. E outros me acham auto-destrutiva.

A fronteira entre a ousadia e a auto-destrutividade é tênue. Nem sempre é discernível. Quase nunca é consciente. Hoje acho que essa ousadia que parece estar no sangue de alguns de nós esconde componentes mais sombrios. Em parte, uma impulsividade patológica. Em parte uma auto-destrutividade criptica.

Depois que re-adquiri algum controle da minha vida, boa parte dos comportamentos de altíssimo risco se foram. Não uso mais drogas, não pratico sexo inseguro e jamais andaria sozinha, à noite, em uma zona de delinquência. Mantenho outros comportamentos que por algum motivo parecem valer a pena.

Esse tanto retive de uma vida de manipulação intelectual de situações probabilísticas e da literatura sobre risco: as estratégias de tudo que é capaz de calcular risco – bichos, gente, classes, culturas, softwares – são baseadas em opções complicadas entre a quantidade de risco e a quantidade de benefício implicadas na decisão. Situações extremas e polares acabam induzindo comportamentos de risco alto: pular da janela de um edifício em chamas contém o risco de morte, de danos físicos extensos e dor intensa. Não pular é uma decisão associada a 100% de probabilidade de morte. Pula-se.

Assim, embora eu ainda seja uma pessoa um tanto porra-louca, calculo mais os meus riscos. Assumo-os com mais propriedade.

Um risco, no entanto, ainda é difícil assumir. O risco de amar, perder e sofrer uma dor insuportável. Acho que esse foi um risco que assumi apenas uma vez – há 23 anos. Depois disso, nunca mais. Ao menor sinal de perigo, abandono o barco.

Isso nunca me protegeu de desastres horrorosos em termos de relacionamento. Meus casamentos foram desastres, cheios de manipulação e sofrimento desnecessário. Mas sem paixão. Jogos, dependências patéticas – tudo isso independe de amor. Na verdade, são a antítese do amor. E estiveram lá, na minha vida, durante todos esses anos nos quais tão eficazmente me defendi do amor. Os barcos do amor ficaram à deriva, enquanto eu fugia para praias afetivas mais seguras e cheias de outras dores.

Antes de morrer, queria aprender a correr esse último risco. Mas não sei se posso. Meu medo é grande demais. Lá no meu armário está sempre à mão a mala pronta para uma fuga rápida.

Ontem à noite, no escuro, pensei no meu medo, meu gigantesco medo, e verfifiquei a mala no armário. 

 

Marilia

 

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