Ana faz todas as noites “treino mental” de corrida - é isso que ela descreveu (http://anacardilho.livejournal.com/2028.h
Será que a Ana faz treino mental de força? Não perguntei, mas talvez isso explique os resultados que ela têm tido, ou então uma genética sensacional de powerlifter escondida no corpo de uma intelectual.
Ana está iniciando seu programa de treinamento de força. No dia em que ela iniciou, sentamos, as duas, e comparamos alguns exames que ela havia feito naquela semana com outros feitos um ano e meio antes. Entre um e outro, um pernicioso tratamento hormonal para controle dos miomas dos quais ela acabou se livrando cirurgicamente. O tratamento hormonal lhe custou a perda de cerca de 30% da massa magra e aumento da porcentagem de gordura de 20% para 30%, numa menopausa precoce induzida.
Olhei para os exames e tive dois pensamentos: o primeiro é que não sei como ela suportou essa tortura. Hoje tenho evidências abundantes, a despeito da negligência da comunidade científica, quanto ao papel regulador do funcionamento mental da musculatura esquelética com volume e bem treinada. A perda dela inexoravelmente será acompanhada de depressão, perdas cognitivas e outros efeitos devastadores. E eu vi, eu acompanhei, a luta da Ana contra essas perdas na base da pura resistência, a seco. O segundo pensamento foi uma preocupação: será que uma pessoa tão prejudicada do ponto de vista metabólico reagiria ao treinamento de forma satisfatória? Será que não levaria muito tempo, tirando dela a motivação?
Conversei com ela a respeito de riscos, da debilidade da musculatura dela e das dores possíveis. Ela foi muito clara comigo: “não tenho medo de dor e quero correr riscos”.
Então corremos.
A atitude dela é de atleta olímpica em treinamento. Não aceita um dia de treino sem aumento de alguma carga, tudo na técnica. Guerreira.
Os aumentos de força da Ana nessas seis semanas de treinamento são absurdos. Mesmo considerando que se trata de um período de adaptação neural, em que a força aumenta por conta do maior recrutamento neural de unidades motoras e não por outros efeitos, em que os aumentos são em geral muito significativos, foi muito, muito alto: 200% de aumento de força no movimento de extensão de joelhos, 150% de aumento de força no movimento de adução do ombro, entre outros.
Genética? Treino mental? Ou simplesmente ela está se divertindo?
Não tenho dúvidas de que logo ela estará correndo no Ibirapuera. Não garanto que será uma corredora de elite, porque o biótipo dela é mais para forte do que para resistente, mas não ponho minha mão no fogo. Ali, tudo é possível.
Correremos juntas, mas não na chuva. Nunca na chuva. Ao contrário da Ana, tenho medo da chuva. Quando chove no meio da noite, acordo, fico esperando as inevitáveis goteiras, fico triste e os pensamentos ruins invadem minha mente. Detesto a chuva, detesto me molhar de roupa e por algum motivo nem consigo pensar direito quando chove. É como se as nuvens carregadas bloqueassem mais do que a luz do sol. Como se bloqueassem a fonte de algum substrato mais essencial.
Junto com a chuva, vem algo do que não consigo me lembrar. Não sei o que é e nem quero saber, mas sei que é onde fica o meu limite.
Os limites da Ana, nem ela, nem eu, sabemos onde ficam. Muito longe, certamente. Ela vai correr na chuva, quem sabe até numa São Silvestre, se ela tiver sorte. São Silvestre é sempre em dia muito quente e a chuva aliviaria o calor. Vou torcer, pela TV, protegida sob um teto qualquer, confortada pela quebra de limites que a Ana faz por ela e também por mim, que não posso correr na chuva.

Marilia