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15 July 2006 @ 11:48 am
Ana correndo na chuva  

Ana faz todas as noites “treino mental” de corrida -  é isso que ela descreveu (http://anacardilho.livejournal.com/2028.html ). Imaginar-se, com a mente calma e concentrada, executando um ato para o qual nos preparamos é também chamado de “imagery”, ou “mentalização”. Psicólogos esportivos estudam há anos técnicas relacionadas e existem evidências da sua eficácia (embora não exatamente consensuais nem totalmente conclusivas). Existem algumas evidências até da eficácia destas técnicas para coisas mais malucas, como remissão de cânceres e controle de desordens graves.

Será que a Ana faz treino mental de força? Não perguntei, mas talvez isso explique os resultados que ela têm tido, ou então uma genética sensacional de powerlifter escondida no corpo de uma intelectual.

Ana está iniciando seu programa de treinamento de força. No dia em que ela iniciou, sentamos, as duas, e comparamos alguns exames que ela havia feito naquela semana com outros feitos um ano e meio antes. Entre um e outro, um pernicioso tratamento hormonal para controle dos miomas dos quais ela acabou se livrando cirurgicamente. O tratamento hormonal lhe custou a perda de cerca de 30% da massa magra e aumento da porcentagem de gordura de 20% para 30%, numa menopausa precoce induzida.

Olhei para os exames e tive dois pensamentos: o primeiro é que não sei como ela suportou essa tortura. Hoje tenho evidências abundantes, a despeito da negligência da comunidade científica, quanto ao papel regulador do funcionamento mental da musculatura esquelética com volume e bem treinada. A perda dela inexoravelmente será acompanhada de depressão, perdas cognitivas e outros efeitos devastadores. E eu vi, eu acompanhei, a luta da Ana contra essas perdas na base da pura resistência, a seco. O segundo pensamento foi uma preocupação: será que uma pessoa tão prejudicada do ponto de vista metabólico reagiria ao treinamento de forma satisfatória? Será que não levaria muito tempo, tirando dela a motivação?

Conversei com ela a respeito de riscos, da debilidade da musculatura dela e das dores possíveis. Ela foi muito clara comigo: “não tenho medo de dor e quero correr riscos”.

Então corremos.

A atitude dela é de atleta olímpica em treinamento. Não aceita um dia de treino sem aumento de alguma carga, tudo na técnica. Guerreira.

Os aumentos de força da Ana nessas seis semanas de treinamento são absurdos. Mesmo considerando que se trata de um período de adaptação neural, em que a força aumenta por conta do maior recrutamento neural de unidades motoras e não por outros efeitos, em que os aumentos são em geral muito significativos, foi muito, muito alto: 200% de aumento de força no movimento de extensão de joelhos, 150% de aumento de força no movimento de adução do ombro, entre outros.

Genética? Treino mental? Ou simplesmente ela está se divertindo?

Não tenho dúvidas de que logo ela estará correndo no Ibirapuera. Não garanto que será uma corredora de elite, porque o biótipo dela é mais para forte do que para resistente, mas não ponho minha mão no fogo. Ali, tudo é possível.

Correremos juntas, mas não na chuva. Nunca na chuva. Ao contrário da Ana, tenho medo da chuva. Quando chove no meio da noite, acordo, fico esperando as inevitáveis goteiras, fico triste e os pensamentos ruins invadem minha mente. Detesto a chuva, detesto me molhar de roupa e por algum motivo nem consigo pensar direito quando chove. É como se as nuvens carregadas bloqueassem mais do que a luz do sol. Como se bloqueassem a fonte de algum substrato mais essencial.

Junto com a chuva, vem algo do que não consigo me lembrar. Não sei o que é e nem quero saber, mas sei que é onde fica o meu limite.

Os limites da Ana, nem ela, nem eu, sabemos onde ficam. Muito longe, certamente. Ela vai correr na chuva, quem sabe até numa São Silvestre, se ela tiver sorte. São Silvestre é sempre em dia muito quente e a chuva aliviaria o calor. Vou torcer, pela TV, protegida sob um teto qualquer, confortada pela quebra de limites que a Ana faz por ela e também por mim, que não posso correr na chuva.

 
 

Marilia

 

BodyStuff

 
 
( 2 comments — Leave a comment )
[info]anacardilho on July 17th, 2006 07:08 pm (UTC)
treinar força é negar a morte
TREINOS DE FORÇA E DE VIDA
(para entender melhor este texto, sugiro, antes da leitura, uma ida ao seguinte endereço:
http://sistersteel.livejournal.com/3329.html)

Tenho feito progressos no treino de força sob a supervisão da Dra Marilia Coutinho. Progressos que eu nunca imaginei que poderia alcançar. Especialmente quatro meses depois de uma histerectomia e depois de usar hormônios que debilitaram meu corpo, roubaram dele a massa magra, meus músculos, minha força, e deixaram no lugar um corpo estranho, um corpo que desde sempre rejeitei. A imagem corporal é algo sagrado. Olhar-se no espelho e não se reconhecer é como acordar sem rosto, cena de pesadelo.
Buscar a força, a esta altura da vida, é buscar muito mais. A cada carga aumentada comemoro um ganho pessoal, estou pagando pra ver e não há blefe nesse jogo. Não vou roubar nas doze repetições, mesmo que o músculo sofra tremores. Por mais difícil que seja o exercício eu quero fazê-lo até o fim. Cerro os dentes, faço caretas, solto o ar... orações usuais para o ritual dos que buscam a força e a cada série realizada ganho a bênção do bem estar. Em alguns exercícios chego a sentir um estranho "barato"... ondas quentes sobem das minhas costas e inundam meu cérebro, é quase uma alucinação, um estado mental elevado, uma visão divina, é algo que eu nunca havia experimentado, sensação única e que vem aumentando conforme vamos aumentando as cargas.
Dra Marilia Coutinho se pergunta se os progressos alcançados estão ligados a "genética, treino mental ou diversão".
A questão genética nunca havia chamado minha atenção. Infância e adolescência foram vividas entre livros e bem distantes das quadras de jogos. Quando eu era escalada pelos professores de educação física, para jogar vôlei, basquete ou simplesmente queimada, eu sempre errava o passe, me deixava queimar ou fugia da bola...tudo de propósito para que o professor me chamasse para o banco. No banco eu podia ler à vontade. Nem me dava ao trabalho de torcer para meus colegas. Paralelamente a esse cenário, eu admirava meu pai em suas corridas diárias. Mas, buscava de novo os livros. Hoje, começo a me dar conta do presente genético que recebi da minha família e me ocorre a lembrança do meu avô, pai do meu pai, que era um sujeito muito forte. Ele adorava desafiar meu pai para um braço de ferro que, quase sempre, ganhava, apesar da idade.
O treino mental que tenho feito, imaginando que estou correndo no parque do Ibirapuera, ouvindo Led Zeppelin, é algo que me acalma na hora de dormir. A cena, repetidas vezes, está sendo aprendida pela minha cabeça e vai virar realidade, apesar do meu reconhecimento de que correr será bem mais difícil que o treino de força. Talvez por isso, instintivamente, eu esteja preparando em primeiro lugar minha mente para correr. Experimentei, no último sábado, correr no Butantã e fracassei. Em pouco tempo estava exausta. Mas não vou desistir.
Quanto à diversão essa é a melhor parte de todo o processo. É delicioso o dia do treino e o depois do treino. Meu tempo tem estado com muito mais ganho: alimentação, sono, a busca por opções saudáveis, a busca pela vida.
Treinar força é negar a morte para mim. O corpo redesenhado que está surgindo aos poucos representa a melhor chance que eu já tive nestes 41 anos. Treinar força é negar a depressão, velha conhecida, que nunca mais apareceu. Treinar força tem trazido uma leveza impagável na minha vida. E devo isso à Dra Marilia Coutinho que além de amiga tem sido uma profissional exigente e ousada. Nós sabemos tudo sobre limites e medos e eles não entram na academia. Não ganharam e nunca vão ganhar passe livre. E se rondarem as esquinas, as calçadas, jogarei neles uns pesos pesados... exorcismo mesmo, no melhor estilo, e vou gritar para o espelho: Sai desse corpo que esse corpo não é seu...ele é meu, TODO E SOMENTE MEU!!
ANA CARDILHO


[info]anacardilho on July 17th, 2006 07:26 pm (UTC)
marilia, minha resposta está em:
anacardilho.livejournal.com
( 2 comments — Leave a comment )