Perto de mim há muito ciúme. Meus amigos e amigas têm namoradas ciumentas. Elas fuçam seus “orkuts”, fazem cenas públicas, gastam uma quantidade incrível de horas com sistemas de monitoramento digital e presencial das interações de seus homens. Qualquer mulher que se aproxime deles é suspeita, telefonemas no celular são ameaças e os olhares deles são rigorosamente observados. Algumas adotam procedimentos adicionais de investigação.
Isso acontece tanto com as namoradas de amigos quanto com namoradas de amigas.
De ciúmes masculino, ouço pouco, mas quando ouço, são histórias de arrepiar.
Não sei dizer como me sinto em relação a isso.
Acho que minha primeira resposta a isso é vergonha. Tenho vergonha por elas e por mim, por ser mulher. Acho esse comportamento tão clichê, tão primário que me constrange. Fico triste e envergonhada pela nossa condição feminina, pela falta de dignidade e senso crítico que permite que essas mulheres apenas perpetuem as caricaturas desqualificantes das quais somos vítimas. Nos expõe como criaturas intelectualmente inferiores, com emoções fora do controle, inseguras e de modo geral... pequenas.
O ciúme é um tipo pequeno e patético de autoritarismo. É o desejo fútil de controle do namorado ou marido que, assume-se, sempre pode se interessar por outra. É um controle pequeno. Um pequeno poder.
Ciúme tem pouca relação com amor – é somente controle, defesa de uma ordem moral e imagem pública.
Não, eu não tenho ciúmes.
Tenho medo de amar, tenho medo da dor, tenho medo do buraco escuro de paredes escorregadias da perda irreversível. Tenho tanto medo que posso até mesmo mutilar preventivamente os afetos. Me ferir, me violentar, mergulhar fundo no mar da minha própria solidão, por puro medo da dor da perda.
Tenho medo também da espécie de hemorragia afetiva que o amor “descorrespondido” causa. Aquela interrupção repentina da reciprocidade que pode me pegar de surpresa, sem os recursos para estancar de imediato o fluxo do meu próprio afeto. E aí... aí... o que acontece? Sei lá... Hemorragias são velhas companheiras e conheço seu perigo. Chega-se fácil, fácil no limite entra a vida e a morte. Não quero mais isso.
Ciúmes fazem parte de um mundo de vidas pela metade, vidas de superfície, de um universo ao qual nunca pertenci.
Ciúmes fazem parte de um pacto perverso com a mentira, onde se assume confortavelmente que o outro pode, sim, mentir. Trata-se, portanto, de um permanente sistema de verificação da verdade.
Às vezes penso que os ciúmes dessas mulheres me incomodam tanto porque parecem recusas mesquinhas em reconhecer a realidade da dor real, uma dor totalmente inevitável mas cujo risco é necessário correr se queremos viver de verdade.
Marilia