Passou o surto destrutivo de ódio. Começou no fim-de-semana passado, quando a namorada religiosamente oficial do meu ex-namorado ligou na minha casa e no meu celular às 1:20h da madrugada. Uma voz de mulher em timbre agudo, um pouco desesperada, perguntou se era “a Marilia” e se eu era de São Paulo. Em seguida o telefone foi desligado. Eu olhei o prefixo e era de Brasília. Liguei para o sujeito e perguntei do que se tratava. Ele se apressou em confirmar que não aconteceria mais. Ela havia encontrado meu número no celular dele e surtou.
A partir deste momento e durante quase uma semana me dediquei ao que existe de pior em mim: humilhar e destruir. Enviei várias mensagens ameaçadoras a ela, proibindo-a de entrar em contato comigo. Prometi inundá-la de informação e cumpri: o cara sempre alegou que a relação com ela era de interesse. Um prostituto, ela seria sua cafetina.
Eu não aceitava, via nele mais uma vítima da monstruosa Igreja Universal. Como repórter da Record e enteado de um poderoso da igreja, ele aceitou ser monitorado pela mulher, aparentemente imposta como preço pelo cargo que ele ganhou sem ter os requisitos de formação para exercê-lo. Mais uma perua de deus, fazendo o papel do demônio.
Contei tudo isso, com detalhes. Mandei os links dos textos em que descrevi a situação. Mandei os links dos textos em que falava da minha relação relativamente longa com ele, sobre o jeito dele dormir na minha cama, o jeito de me pegar, as expressões dele e todos os elementos da nossa vida de casal. Mandei os links do nosso álbum de fotografias, com fotos de nós dois nos beijando, nós dois comendo juntos, ele tomando café na cozinha da minha casa e outras cenas do nosso mundo. Acusei-a de tomar o que não lhe pertencia. Acusei-a de prostituir o sujeito. E sabendo-a religiosa, acusei-a de imoral, suja e pecadora. Disse que queimaria no inferno pelo papel demoníaco que fazia.
Fiz pior: mandei-a olhar meu currículo Lattes e fotografias. Queria realmente que ela se visse pequena, escrotinha, e ridícula. Ela tem segundo-grau completo – eu sou pós-doc. Ela é uma peruinha de visual brega – eu sou uma lokona de visual não-convencional. Ela escreve muito mal – eu sou escritora. Ela é uma pequena funcionária pública da burocracia federal – e eu sou sei lá o que, mas estou bem longe dessa mediocridade. Meu desejo era esmagá-la.
Silêncio.
Nenhum dos dois ousou me confrontar.
Em alguns dias, ela deletou o perfil público dela na Internet. Desapareceu.
Meu ódio era tanto que se ambos não morassem em Brasília eu estaria presa por agressão física agora. Não tenho dúvidas de que teria batido nos dois. Filminhos de surras em ambos ficavam passando pela minha cabeça, me envenenando.
Mas depois de alguns dias, me dei conta de que ela é tão insignificante que daria trabalho localizá-la em Brasília para prejudicá-la no trabalho. Como ela, existem milhares. Aos poucos, foi ficando sem sentido usar meu tempo nessa vingança esquisita. Foi caindo a ficha dos apelos de vários amigos que me diziam estar matando pulga com tiro de canhão.
No meio disso tudo falei com o sujeito. Nunca insultei alguém como insultei esse cara. Chamei-o de porco, de prostituto, de nojento e vários outros elogios na mesma linha. E desliguei o telefone, obviamente insatisfeita. A agressão não satisfaz – nunca. Não faço idéia, e nem quero fazer, a que limites pode chegar.
Eu havia cuidado dos sites dele. Ele, como muita gente, não fazia idéia de como funcionam essas coisas. Eu comprei os quatro domínios que ele queria – um com o nome dele, dois a respeito de Drift, o esporte que ele gosta e começou a praticar, e um com algo relativo à família dele – e hospedei na minha conta de hospedagem para múltiplos domínios.
No início do surto de ódio, mandei-o procurar outro registrar e host para os sites dele. Ontem, tive uma última reação de misto de ódio e desprezo. Observei posts dele na Internet pateticamente tentando amenizar a óbvia crise no relacionamento com a babá da Universal, com declarações de amor eterno. Fiquei entre duas opções: mudar a senha do user que criei para ele, sentando eternamente em cima dos nomes de domínio e assim prejudicando-o bastante, ou simplesmente cancelar tudo – domínio e hospedagem.
Foi então que me dei conta de que se eu levasse adiante minha vingança, quem estava presa era eu. E ficaria eternamente presa, enquanto não desistisse da punição. E quando desistiria? Esse tipo de projeto destrutivo não tem prazo, não tem fim previsto, não tem nada. Alimenta-se de si mesmo.
Cliquei o botão do “cancel domain”. Apareceu um aviso me alertando para o fato de que se eu confirmasse meu comando, não poderia adquirir novamente aquele domínio. Nunca mais ele seria meu. Confesso que hesitei. Será que eu estava pronta mesmo para deixá-lo partir? Sem nenhuma porrada a mais? Nenhuma humilhação, nenhuma vingança? Estava. Confirmei o cancelamento.
Naquele momento, senti alívio. Todas as fantasias de agressão se dissolveram. Também se dissolveram as fantasias de amor e carinho, que, óbvio, ainda estavam lá, seja sob a forma de memória, saudade ou esperança irracional. Nunca mais verei o sujeito, nem terei contato com ele.
Abri mão do meu ódio. Não perdoei, nem desejei a ele “que seja feliz”. Fiz algo muito melhor, pois mais sincero: não desejei mais nada. Nem de bom, nem de ruim – nada.
A liberdade é a ausência do desejo. Muitas vezes ela é dolorosa. Outras vezes ela é a água da vida, restituindo uma paz perdida.
Marilia