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22 July 2007 @ 12:39 pm
Pedir perdão sem fazer reparação é retórica manipulativa  

Pedir perdão é pedir desculpa. “Desculpa” é uma solicitação da revogação da “culpa”: “des” + “culpa”. E o que é “culpa”? Culpa é a consciência de um ato doloso. Eu sou culpado quando sei que cometi uma ação consciente e voluntária que causou dano a outro, ainda que a intenção não fosse causá-lo. Mas, se o dano não é algo desejado ou se há arrependimento por tê-lo causado, então há culpa. Se o dano é desejado, aí trata-se de guerra mesmo e qualquer menção a perdão é tática de batalha.

Existe um diferença substancial entre pedir desculpa, ou perdão, e dizer que se “sente muito”. “Sentir muito” é simpatizar com a dor do outro, mas não implica em admissão de dolo. Digamos que estou no ônibus, este freia, eu perco o equilíbrio e esbarro numa pessoa que acaba caindo. Nesse caso, eu “sinto muito”: obviamente, não tenho culpa nenhuma. Se puder ajudar, farei. Mas não se trata de reparar um dolo.

Assim, pedir desculpa implica em admitir dolo. Conseqüentemente, trata-se de, simultaneamente, tomar medidas para reparar o dano. Se foi uma agressão, devo me retratar e fazer alguma contribuição para restituir conforto à vítima; se foi um ato de negligência, devo me dedicar a quitar a inadimplência; se foi um comportamento contínuo que causou dano prolongado, devo, além de me retratar, cessar o comportamento e também tomar medidas de restituição do bem-estar da vítima. Sem isso, pedir desculpa ou perdão é só mais um ato manipulativo (de natureza retórica), mas que, na essência, implica a renovação da própria culpa.

Assim, pedir desculpa ou perdão requer muita responsabilidade e coragem. Se não for para reparar o dano, não faça: é pior. Fique quieto, admita que você é um canalha e durma com seu próprio mal.

Existe o outro lado do pedido de desculpa ou perdão, o de quem recebe. Quem recebe o pedido só deve assentir, ou seja, “desculpar” o réu, se de fato se considera reparado. Caso contrário, é apenas um ato de transferência bancária: o mal-estar do “sentimento de culpa” é transferido do real culpado para a vítima, que, por motivos formais, religiosos ou porque é bunda-mole mesmo, “desculpa” o réu. Seria “feio” não fazer isso. A tradição judaico-cristã foi muito eficiente em imprimir essa “economia do sentimento de culpa” principalmente nas famílias, o que causa conflitos eternos. Eu “desculpo” o réu porque, se não o fizer, vou me sentir culpado. Aí eu desculpo, engulo um enorme sapo, que se chama ressentimento, ele fica lá dentro, fermentando, junto com a culpa de não conseguir de fato desculpar o culpado.

É um inferno.

Tudo seria mais simples se as cartas estivessem na mesa. E se fosse negado aos canalhas o conforto de serem perdoados, finalizando essa cadeia de transferência de responsabilidades. Cometeu um erro sério: não pode reparar? Foda-se: coma seu próprio pecado e envenene-se com ele.

 

Marilia

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( 3 comments — Leave a comment )
[info]noiteestrelada on July 23rd, 2007 03:00 pm (UTC)
Para a maioria de nós, é um longo processo saber que não, não é tão fácil nem rápido perdoar. E que, se não for para perdoar MESMO - o que só é possível, na maioria dos casos, com o tempo e a distância - melhor não fingir que está tudo bem, que somos "superiores, limpos, classudos, 'espiritualizados', etc etc etc". Porque não somos.
Vou além - não existe perdão, na maioria dos casos que eu vejo por aí, senão em todos.
Se há perdão, ou o dano foi reparado (não importa se pelo culpado ou não) ou ele passa a ser integrado ao psiquismo da vítima, passando esta a elaborar, a partir daí, vários elementos que tornam a questão do "quem causou o dano" completamente indiferente.
O que costumamos ver não é isso: é um simulacro de "isso não me afeta". Mentira: afeta sim. E enquanto afetar, enquanto não formos completamente indiferentes, ou não sentirmos nossa sede de vingança saciada (porque temos isso também!) ou que fomos sobejamente recompensados/as por Deus, pelo Destino ou pelo próprio causador do dano, não conseguimos perdoar.
(Anonymous) on July 23rd, 2007 08:48 pm (UTC)
Existe outro aspecto: se eu "perdôo", o que isso significa? Uma volta ao estado de coisas anterior? Ou uma constatação de que "todos fazemos cagadas, umas maiores do que outras, talvez, e a vida continua"? Me parece que a "economia do sentimento de culpa", como você diz, tal como costuma operar nas famílias, faz um simulacro de "volta ao estado de coisas anterior", o que tanto traz embutido o sapo difícil de engolir do ressentimento (porque todos querem ficar bem na foto, posarem de esclarecidos, espiritualizados, superiores, mestres nas artes da convivência, etc etc) quanto tenta uma coisa que é impossível: enquanto podemos mudar nossas conclusões e elaborações sobre o passado, é impossível tomá-lo como inexistente.

... my 2 cents.

beijos,

Val.
Sister Steel[info]sistersteel on July 23rd, 2007 09:28 pm (UTC)
Pois é, por isso eu disse que tem dois lados e os dois requerem coragem e, acima de tudo, RESPONSABILIDADE. Assumir que se fez uma cagada não é tão dificil assim... Mas RESOLVER ("it takes resolve..") consertá-la, repará-la, compensá-la, isso sim requer muita responsabilidade. Digo por experiência. Por orgulho besta, muitas vezes deixei de pedir desculpas e reparar erros que cometi, machucando pessoas que amei, e hoje considero que além do orgulho houve covardia, fraqueza e imaturidade.
O outro lado é o da hipocrisia e bom-mocismo: que feio é vc dizer "não, não desculpo porra nenhuma" para alguém que lhe procura com a maior cara de cachorro pedinte, não é? Feio nada! Sincero!
O problema é que se não somos treinados para ser responsáveis e corajosos, muito menos somos treinados para ser sinceros. E aí a merda inteira está basicamente completa: de um lado, os oportunistas e irresposáveis; do outro, os cheios de sentimento de culpa e hipócritas. E a grande miséria humana continua.
Mas eu ainda acredito na DESCULPA como escada para evolução das relações. Acho praticamente impossível não cagar relações realmente íntimas. Todas as minhas envolveram cagadas de todas as partes. Mas as que evoluiram foram aquelas onde houve espaço e sinceridade para pedir desculpas, aceitar o tempo do outro para conseguir desculpar - mas DES-culpar para valer, erradicar a culpa, conseguir se sentir grato pela reparação do outro e ver tudo como um processo construtivo - e passar para outro nível.
Quantos conseguimos isso? Olha... não tão poucos assim... sou mais otimista com isso, Val.
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