Pedir perdão é pedir desculpa. “Desculpa” é uma solicitação da revogação da “culpa”: “des” + “culpa”. E o que é “culpa”? Culpa é a consciência de um ato doloso. Eu sou culpado quando sei que cometi uma ação consciente e voluntária que causou dano a outro, ainda que a intenção não fosse causá-lo. Mas, se o dano não é algo desejado ou se há arrependimento por tê-lo causado, então há culpa. Se o dano é desejado, aí trata-se de guerra mesmo e qualquer menção a perdão é tática de batalha.
Existe um diferença substancial entre pedir desculpa, ou perdão, e dizer que se “sente muito”. “Sentir muito” é simpatizar com a dor do outro, mas não implica em admissão de dolo. Digamos que estou no ônibus, este freia, eu perco o equilíbrio e esbarro numa pessoa que acaba caindo. Nesse caso, eu “sinto muito”: obviamente, não tenho culpa nenhuma. Se puder ajudar, farei. Mas não se trata de reparar um dolo.
Assim, pedir desculpa implica em admitir dolo. Conseqüentemente, trata-se de, simultaneamente, tomar medidas para reparar o dano. Se foi uma agressão, devo me retratar e fazer alguma contribuição para restituir conforto à vítima; se foi um ato de negligência, devo me dedicar a quitar a inadimplência; se foi um comportamento contínuo que causou dano prolongado, devo, além de me retratar, cessar o comportamento e também tomar medidas de restituição do bem-estar da vítima. Sem isso, pedir desculpa ou perdão é só mais um ato manipulativo (de natureza retórica), mas que, na essência, implica a renovação da própria culpa.
Assim, pedir desculpa ou perdão requer muita responsabilidade e coragem. Se não for para reparar o dano, não faça: é pior. Fique quieto, admita que você é um canalha e durma com seu próprio mal.
Existe o outro lado do pedido de desculpa ou perdão, o de quem recebe. Quem recebe o pedido só deve assentir, ou seja, “desculpar” o réu, se de fato se considera reparado. Caso contrário, é apenas um ato de transferência bancária: o mal-estar do “sentimento de culpa” é transferido do real culpado para a vítima, que, por motivos formais, religiosos ou porque é bunda-mole mesmo, “desculpa” o réu. Seria “feio” não fazer isso. A tradição judaico-cristã foi muito eficiente em imprimir essa “economia do sentimento de culpa” principalmente nas famílias, o que causa conflitos eternos. Eu “desculpo” o réu porque, se não o fizer, vou me sentir culpado. Aí eu desculpo, engulo um enorme sapo, que se chama ressentimento, ele fica lá dentro, fermentando, junto com a culpa de não conseguir de fato desculpar o culpado.
É um inferno.
Tudo seria mais simples se as cartas estivessem na mesa. E se fosse negado aos canalhas o conforto de serem perdoados, finalizando essa cadeia de transferência de responsabilidades. Cometeu um erro sério: não pode reparar? Foda-se: coma seu próprio pecado e envenene-se com ele.
Marilia