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29 June 2006 @ 01:12 pm
Rituais  

Ana se sentou do meu lado, na frente do espelho que ela diz sagrado. Mostrei a ela o movimento e passei para ela o dumbell. Enquanto ela executava o exercício, concluimos, juntas, que as mulheres precisam de rituais. Que talvez tenham historicamente inventado, ou conduzido os rituais.

Olhamos uma para a outra, satisfeitas com nossa conclusão.

Lá foi Ana cumprir o restante do ritual de integração, fazer seu alongamento e ir para casa comer e escrever.

Talvez ela tenha me preparado e talvez, me atribuindo esse título de Lilith encarnada, tentado me dar o aval necessário para cumprir um ritual dificil, mas muito necessário.

Um ritual é um procedimento de atos simbólicos, cujo significado só é transparente num determinado contexto. Esses atos, por serem ações no mundo real, confundem, pois são o que são e são o que representam, às vezes com significados muito indiretamente relacionados com os atos em si.

Lilith é a fêmea original, expulsa do paraíso por trazer para ele o universo assustador da sexualidade feminina, o sangue, a saliva, o líquido do sexo.  Rituais lilithianos são carnais e dolorosos, pois sexo não é só sexo – o mundo das mulheres é cheio de significados que se entrelaçam e não se separam dos atos.

Os rituais existem para proteger alguma ordem, impor o arbítrio sobre o caos.

E foi o que fiz.

Me despedi de alguém numa dimensão. Derek é alguém que me resgatou de um mundo escuro de medo e negação. Me restituiu alguma integridade. Me pegou nos braços, me expôs ao Sol, me mostrou minha própria beleza e seu lugar na minha identidade. Derek conseguiu juntar algumas pontas da minha confusão existencial. Me autorizou a ser tudo junto. Nunca tive que abrir mão da minha sexualidade e libido para explorar idéias e abstrações com ele. Nem essas idéias subtrairam nada da minha beleza e atratividade. Sempre me tratou como a loira gostosa, a intelectual, a amiga e a atleta, sem rupturas e descontinuidades. Derek me deu o passaporte para um mundo sem fronteiras. Isso nunca se apagará. Essa é uma dívida que não se paga, apenas se honra com a lembrança e a consideração. Derek está e estará eternamente alojado num compartimento especial do meu coração e da minha vida.

Na dimensão carnal, me despedi de Derek como Lilith que me cabe ser. Me despedi ritualmente. Guardei nos olhos cada milímetro do seu corpo. Fechei os olhos e farejei-o. Abracei-o longamente, passei minhas mãos por sua pele quente e músculos densos. Senti seu gosto pela última vez, longamente. Olhei-o bem nos olhos escuros, meio cansados, meio gripados.

Com essa despedida, essa dimensão some e outra fica central na nossa história.

Fiz isso por mim, em primeiro lugar, e por ele.

Por mim, porque preciso da estrada do meu coração aberta. Por ele, porque devo isso à bela forma de amor que ele me permitiu viver – o amor de que eu precisava naquele momento.

Ritualmente, então, também abri uma estrada. Ritualmente dei acesso a outro homem muito especial. Completamente diferente de tudo que já conheci. Esse homem me disse para pular, que ele segura. Fiquei por um tempo olhando para ele, pensando se pulo ou não pulo. Se pulo, caio onde? Nos braços dele, em primeiro lugar. Mas num território ainda para mim desconhecido. Não sei ainda como é isso. Vivi uma vida inteira em que sentimento e ato foram separados no espaço e no tempo. Não sei viver amores reais. Não sei namorar. Não sei assistir o jogo do Brasil do lado dele. Nem entendo futebol, assim como não entendo o jogo do cuidado.

Mas ele entende e eu ritualmente me entrego ao aprendizado desse novo jogo. Onde só há lugar para um mestre, um outro jogador.

Talvez os homens não tenham noção da arquitetura maluca no universo simbólico feminino. O quanto tudo é altamente ritualizado. Tenho certeza de que Derek não tem idéia do que eu fazia ao percorrer o mapa de seu dorsal com os dedos.

E acho que Galahad não sabe o que fiz hoje ao dizer a ele que “a partir de hoje, a estrada é sua, não sei para onde vai, não preciso e nem quero saber, pois me sinto mais livre assim”.

Por que Galahad? Porque foi Galahad que encontrou o cálice sagrado.

Marilia

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