Eu tenho uma filha. Ela faz dezessete anos hoje, às 20:30h. Não a verei hoje à noite porque ela tem um compromisso de estudo com colegas. Em geral, sextas e sábados eu não a vejo de noite. Todos os outros dias, fico torcendo para que ela esteja acordada quando eu chego, em geral depois da meia-noite. Ficamos horas conversando e eu me preocupo com o déficit de sono que isso provoca, já que ela precisa acordar às 6h para ir para a escola.
Minha filha se chama Mel e não gosta da idéia ser uma coisa doce. A doçura dela a incomoda, como se lhe faltasse algum tempero, como se lhe faltasse a pimenta que machuca ou o amargo que prende.
Mas eu preciso dela muito mais como água do que como doce. Ela não me adoça a vida. Ela me hidrata a vida (só ela sabe sobre minha obsessão por água). Sinto falta da voz e do contato dela do mesmo jeito que sinto sede. Vivo sem açúcar, mas não vivo sem água.
Eu passo, às vezes, por maus momentos. Momentos de muita dor e angústia. Nesses momentos, a única coisa que quero é ouvir a voz da Mel. Tenho medo de parasitá-la. Então ligo e pergunto alguma coisa idiota. “E aí, tudo bem?” “Tudo bem, mãe. E aí?... tudo... BEM?...” “Tuuudo. Tudo ótimo.” “Que bom.” “Ahnn... você volta hoje pra casa?” “Volto, mãe. Eu moro lá...” Com o tempo ela aprendeu que esses diálogos não são nada. Não têm conteúdo, só forma. São apenas um veículo para que eu ouça a voz dela e retome algum eixo perdido.
Ela também passa por maus momentos. Eles me dão impotência. Mas me sinto bem pelo menos de ter a chance de estar ali, do lado dela, embora isso não impeça que as lágrimas dela escorram. Nem que os pensamentos dela a machuquem. Nem que viagem por onde não precisam viajar.
Minha filha é muito especial. Ela nasceu especial, porque é minha e porque a desejei antes mesmo de existir materialmente. Depois ela cresceu especial. Passei minha vida torcendo para que sua condição especial não a empurrasse para as bordas da consciência e da percepção, como fizeram comigo. Continuo torcendo, mas com mais serenidade, porque sei que ela tem força para achar a saída do que quer que seja seu labirinto interno. Eu, que sou bem menos competente, achei o meu – se for o caso ela achará o dela com mais destreza.
Minha filha é especial porque é fêmea. Ter um bebê fêmea é diferente de ter um bebê macho. Dá tanta ambivalência... Lembro que minha mãe sempre torcia para que os bebês nascessem machos. Ela é sábia: sabe que o mundo é bem mais pedregoso para as mulheres, e isso começa cedo. E desejamos menos pedras aos nossos filhos. Então quando nasce uma fêmea, uma coisa já sabemos: tudo será mais difícil para ela. A partir do momento que sabemos que é uma fêmea, sabemos que estaremos no mesmo barco pela vida.
Minha filha fêmea nasceu num mundo ainda muito complicado para as mulheres. Mas ela me dá motivo para acreditar que sua geração pode colocar importantes pontos finais em dores ancestrais, dores que mulheres como eu só conseguiram abrir mais, sangrar mais, apodrecer com pus. Ela consegue me dizer que os homens não são “do mal” e que o amor não é apenas uma ficção de mau-gosto. Embora ela também me diga que “true love” talvez seja apenas um “tipo ideal”, no sentido weberiano. Que serve como ferramenta eurística e nada mais. A realidade é mais rica, mais nuançada, mais complexa e mais... imperfeita.
Minha filha é sábia, mas não sabe.
Ela pensa de forma um pouco diferente, mas não sei como é. Nem ela. Mas desde sempre ela resolveu pequenos problemas de um jeito um pouco diferente, de como arranjar bloquinhos de madeira no espaço, resolver equações ou entender o amor. Talvez o jeito dela seja melhor. Talvez seja só diferente.
No centro do meu universo está sentada, em posição de lótus, a Mel. A partir dela, como numa laboriosa teia de aranha, construí projetos, amores, sonhos, casas, instituições, textos, princípios, estéticas, corpos, sons... Todo o mundo que conheço como real. Ela é a base de tudo. A origem de tudo. Onde tudo começa e tudo acaba. Meu igual e meu oposto. Parte de mim e estranha a mim.
Minha filha. Meu amor. Minha melhor amiga. O grande amor da minha vida.
Marilia