Na casa da minha mãe tinha uma descarga que volta e meia não funcionava direito, não sei até hoje por que. O coitado que usava a privada acabava sendo objeto de piadas do tipo “comeu rolha ou o que?”. Fora o fato de que a merda ficava ali, exposta, para observação de todos: “nossa! Tão pequenininho com um cocô tão grande!”.
Certas coisas na vida se comportam como esses cocos em privada com descarga ruim: você aperta o botão, manda embora e a coisa fica lá, girando, girando... nada de seguir seu rumo natural para o esgoto. Às vezes é pior: dá uma afundada, você pensa que conseguiu mandar embora, mas aí o redemoinho para e a merda emerge novamente, intacta.
A semana passada recebi um e-mail que esfregou na minha cara a pior dessas merdas que insistem em não afundar: meu último casamento.
Me separei do sujeito para valer há mais de três anos; só de pensar nele tinha ânsia de vômito por mais dois; no ano passado, muito devagar, pensei ter recuperado algum nível de interação civilizada – sempre tem algum papel idiota que eu tenho que assinar, até hoje. Achei até que ele tinha abandonado a missão de destruir a auto-estima feminina a qualquer custo, missão que lhe valeu amplo reconhecimento público (eu fui a terceira ex-mulher reduzida a pó por um casamento com ele).
Qual não foi minha surpresa ao receber um e-mail onde ele “magnanimamente” me convidava a escrever uma página em seu blog (de nenhuma visibilidade) sobre câncer de próstata. Sobre o que? Sobre minha experiência em ter sido esposa dele (“o maior cientista político de todos os tempos da América Latina, o único que publicou em bla bla bla” mas... também portador de câncer de próstata)! Como se não bastasse esse convite que se sugere como uma grande honra para mim, ele acrescentou: “Tu tens conhecimento e facilidade de expressão”. “Conhecimento”?? “Facilidade de expressão”??? Cientista, escritor, dono de estilo impecável é ele, claro. Eu “sei umas coisinhas” e tenho “facilidade de expressão”. Sei, sei...
Não teve jeito: a merda emergiu com tudo, como num gêiser demoníaco. Lembrei da longa campanha dele para destruir minha relação com o cara por quem eu realmente estava apaixonada e vivendo um amor complicado, em 1997; depois da pressão para que eu abortasse meu pós-doc, após o acidente de queimadura da Mel, aprofundando minha sensação de fracasso; depois toda a sabotagem a oportunidades profissionais, onde a idiota aqui recusou convites para eventos internacionais e concursos no Brasil para servir sua majestade. Lembrei então de cenas em Shitville: eu já plenamente destruída, com nenhuma auto-estima, amigos e familiares nem me reconhecendo direito, meio apática, sentada à mesa de jantar, escutando-o dizer que eu deveria “adquirir uma formação qualquer”. Detalhe: eu tinha mestrado, doutorado e pós-doutoramento, era bastante considerada na minha área e era inclusive diretora de uma sociedade científica internacional. No entanto, ele conseguiu, por mecanismos de lavagem cerebral que só ele domina, me fazer acreditar que eu não era nada, que não valia nada, que só servia mesmo para limpar seu xixi, seu coco e seu vômito, já que ele era doente e produzia bastante destes detritos.
Virei isso: enfermeira e especialista nas coisas dele, inclusive em câncer de próstata. Se eu me comportasse bem, mas bem mesmo, tinha algum sexo – no começo. Sexo era como o Biscroc que minha mãe dá à Zelda (a cachorrinha) se ela toma o remédio. Tinha muito pouco. A tirania dele é compulsiva: não conseguia me ver sem pedir algo, nem que fosse um copo de água, que ele nem tomava. Era só para me colocar no meu lugar, satelizando-o.
Já discuti bastante, neste espaço, minha desordem bipolar. O que eu não disse é que, até 1996, eu havia permanecido por mais de 10 anos sem tomar nenhum psicotrópico. Tinha minhas variações de humor, algumas insônias, mas me virava. Durante os anos que vivi com esse traste, percorri mais ou menos o espectro todo de drogas para controlar a doença, que só evoluía. Foi quando retomei o hábito de me cortar sistematicamente.
Foram, sem a menor sombra de dúvida, os piores anos da minha existência, só comparáveis em horror àqueles em que fui vítima militante da ultra-esquerda, submetida a estupros e violências indescritíveis.
Não: não atribuo a doença nem minha infelicidade a ele. Até porque, ele não teria nenhum espaço na minha vida se eu não estivesse vulnerável como estava. Ele é apenas um parasita, ou melhor, um predador. Daqueles que identifica os indivíduos mais doentes e vulneráveis da manada e ataca. Todos os predadores têm essa estratégia. Eles nascem com a capacidade instintiva de identificar suas vítimas.
Acho que o que mais me dói dessa experiência toda é a percepção de que esse nível de controle sádico e patológico é possível. Nunca houve paixão nem amor verdadeiro, da minha parte (nem da dele, obviamente). Apenas medo e um conjunto de crenças que sei lá como ele conseguiu enfiar na minha cabeça. Vivi anos de sentimento de culpa sem fim, com a certeza de que recebia a punição devida.
As palavras dele, logo que nos conhecemos, ecoam até hoje: “sei que você ainda não me ama, mas vai aprender a me amar”.
Não, não aprendi. Aprendi a temer. Depois a obedecer. Depois a me libertar e enfim a odiar.
Chegou a hora de aprender a mandar para o esgoto.
Melhor consertar a descarga.
Marilia