Anteontem a Mel trouxe para casa e leu para mim um achado que fez na casa da minha mãe: uma estorinha escrita por mim em 1971 (quando eu tinha 8 anos). Era a respeito de um gênio mulher, que vivia numa comunidade de gênios-pessoas, que tinham muitos poderes mas eram subordinados a um humano qualquer por meio de uma garrafa. A protagonista da história e alguns outros gênios tiveram uma sacada genial: quebraram suas garrafas e assim não corriam mais o risco de serem escravizados por ninguém. Claro que essa estorinha é uma solução que eu achei para um problema que me afligia na época: Jeannie era um gênio, mas também escrava. “Jeannie é um gênio” era um seriado muito popular da Columbia Pictures filmado entre 1965 e 1970 nos Estados Unidos (http://retrotv.uol.com.br/jeannie/ ). No original, era “I Dream of Jeannie”, um poético e intradutível trocadilho e alegoria, referindo-se à canção tradicional de Stephen Foster “I Dream of Jeannie” e também ao fato de que a palavra “gênio” – genie – se pronuncia da mesma forma que o nome Jeannie. Bem, pelo menos eu acho que deve ser. “Jeannie é um gênio” surgiu um ano depois de “A Feiticeira” (Bewitched). Os dois tinham muito em comum: eram estrelados por seres femininos mágicos (Jeannie era um gênio e Samantha era uma bruxa), loiras, casadas (ou juntadas ou namoradas) com homens mortais. A diferença é que Samantha abrira mão de seus poderes para ser uma dona-de-casa de classe média conservadora norte-americana e seu marido era um idiota ranzinza com um trampo totalmente sem-graça e Jeannie era um gênio, vestia roupas estranhíssimas de odalisca, era meio eufórica e inocente e seu marido era um astronauta desastrado. “A Feiticeira” me deprimia completamente, eu achava o marido repugnante e a situação dela insuportável. “Jeannie é um gênio” era muito divertido porque ela sempre inventava algum absurdo, o choque de culturas era interessante e não abominado, o marido era interessante e só havia um problema: ela era uma escrava. A tal garrafa dos gênios era o instrumento de dominação.
Aparentemente, eu “resolvi” essa contradição de uma forma muito simples: quebrando as garrafas. Como não pensaram nisso antes?
Uma vez resolvida a “questão de base”, o gênio-fêmea enfrentou um outro problema: a “doença da Lua”. Essa moça mágica resolveu explorar a Lua, porém contraiu uma terrível doença lá, cujos sintomas eram basicamente alucinações e o medo de perder os poderes. Não sei se com oito anos eu sabia que o outro nome para “loucos” era “lunáticos”, numa referência à relação com a Lua. Mas, como louca em formação, provavelmente eu já tinha lá minha relação especial com o satélite. Por algum motivo, o que aterrorizava a Marilinha de 8 anos era essa doença estranha que a afastava do real, produzindo alucinações, e privava-a de seus poderes. Que poderes? Acho que o poder da sanidade – o poder sobre ela mesma.
Quando a Mel leu a estorinha para mim, não me restaram dúvidas que de algum jeito, as pessoas seriamente afetadas por desordens sabem disso antes, durante e depois da doença aflorada.
Depois, mais tarde, minha mãe comentou que desde pequena eu era “meio diferente” mesmo, numa permanente atitude de “afastamento”.
Mas de alguma forma eu via uma luz no fim do túnel. O gênio-mulher foi curado por um... “jovem cientista”! E depois se casou com seu namorado também gênio, que a descreveu num poema na estorinha. Muito diferente de Bárbara Éden, atriz de Jeannie é um gênio, Elizabeth Montgomery (Samantha) ou eu mesma – todas loiras com cabelos bem lisos – a gênia da estorinha era morena e tinha cabelos cacheados.
Acho que todos os ingredientes já estavam ali, para mim e talvez para todas as meninas da minha geração. Algumas pegaram um barco, outras outros. O meu desde sempre foi esse, eu acho. Não queria garrafas, não queria a loirisse lisa bem comportada e tinha medo do inexorável poço escuro dentro da minha cabeça “diferente”...
BodyStuff