O laboratório de Comunicação mediada por computador da Universidade de Cornell tem desenvolvido uma pesquisa sobre mentira ou dissimulação na comunicação textual por computador. Eles se batizaram de “Decepticons” (http://cucmc.comm.cornell.edu/decepticon
As conclusões são bastante interessantes. Uma delas aponta o fato de que as pessoas mentem mais na comunicação oral do que na escrita. A segunda é que o texto mentiroso é verborrágico, contendo em média 28% mais palavras do que o texto verdadeiro. Isso é interpretado como uma necessidade de dar credibilidade ao contexto fictício. A terceira é que a comunicação apresenta uma quantidade grande de terceiras pessoas (“ele” ou “ela), numa tentativa de afastamento do conteúdo pelo autor, interpretado como uma reação à culpa pela mentira. Outras conclusões eu englobaria sob o rótulo de “ênfase subjetiva”, que diz respeito à freqüência de enunciados sobre emoções (termos como “triste”, “com raiva”, etc.) e sensações (“sinto”, “percebo”, “toco”, etc.).
Essa pesquisa me sugeriu uma distinção que há muito tempo eu buscava fundamentar, que é a diferença entre mentira e fantasia. A mentira é uma tentativa deliberada de convencer o outro quanto à credibilidade de um enunciado. A fantasia não: ela é tão ficcional quanto a mentira, mas carece da intenção persuasiva com interesses relacionados à reação do interlocutor. Quem mente sabe que não passou a tarde no Shopping Villa Lobos, mas quer que o interlocutor acredite nisso por algum motivo: ou porque passou a tarde no motel numa traição amorosa, ou porque na verdade foi pular de pára-quedas e sabe que a mãe infartaria se soubesse. Quem fantasia não: quem fantasia está entretido com a ficção, seja ela positiva ou negativa. A criança que diz que há um monstro embaixo da cama não está mentindo. O terror gerou nela expectativas tão palpáveis que ela acredita que ele está lá, sim. A outra que nega que o tio a tenha bulinado também pode não estar mentindo (mas pode estar, por efeito de ameaças ou vergonha): as emoções negativas associadas a essa vitimização podem ser tão poderosas que ela não admite para si mesma que aconteceu, preferindo a versão ficcional.
Eu tenho horror e raiva incontrolável de mentira e todos que me conhecem já presenciaram minhas reações de repulsa. Sabendo disso, meu ex-marido, que tinha um ciúme doentio de minha filha (de quem ele não é o pai), insistia que ela mentia. Dizia que todas as crianças mentem, particularmente porque os filhos dele mentiam deslavadamente e assumiam isso. Tirano, ele agredia e batia nos filhos, os quais, por medo, mentiam intencionalmente. Mas quando ele alegava que a Mel mentia e expunha incongruências entre o que ela falava e os fatos, algo me incomodava e nunca consegui expressar claramente por que. Agora vejo: naquele momento, ele jogou com o elemento da mentira – ausente nas fantasias – que mais me agride, que é a INTENÇÃO MANIPULATIVA. Na verdade, quem tinha a intenção manipulativa era ele, e não minha filha de oito anos.
O tempo passou e continuei caindo em armadilhas manipulativas diversas por ter essa inabilidade insuperável para detectar a intenção maliciosa de quem dissimula. Ao mesmo tempo, a comunicação digital evoluiu rapidamente. Hoje, a maior parte das minhas interações é virtual. Passei a participar e estudar redes digitais e até mesmo dar alguma assessoria a outras pessoas que se deparam com dificuldades nas mesmas. Um assunto que sempre dá problema são os fakes e trolls. “Fakes” são perfis falsos criados com objetivos maliciosos ou não para interagir em comunidades virtuais. “Trolls” são os perfis falsos criados necessariamente com objetivos maliciosos, particularmente o de desestruturar comunidades virtuais bem estabelecidas. Ou seja: fakes podem não ser trolls (e em geral não são), mas trolls são sempre fakes.
Poderia-se argumentar que existe sempre uma certa medida de “faking” em toda construção de perfil. Escolhemos deliberadamente, para exibição nas mídias, as fotografias que constroem uma representação de nós mesmos que nos interessa. Isso implica deixar de lado outras dimensões nossas, que são infinitas. Para entender como isso funciona, construí um fake no orkut. Esse fake “anuncia” sua falsidade e seu desejo de ocultar a identidade real. O nome é “Persona Incognita” (pronto: já deixou de ser fake nesse momento), ela não tem ninguém em sua rede de amigos e portanto pode participar de qualquer comunidade sem que sua origem seja traçada a mim. As imagens do perfil são fotografias de esculturas femininas em galerias de arte. É um fake inocente cujo objetivo era fazer um experimento.
O fake inocente em geral se anuncia como fake por algum elemento: um nome absurdo (de personagem ficcional ou pessoa pública) ou uma imagem não plausível (Mickey Mouse, Hulk, uma galinha). O meu absurdamente pertence a comunidades petistas e anti-petistas, pró-armas e contra armas, de fanáticos por academia e de sedentários ideológicos.
O fake malicioso ou patológico é diferente: tem nome real, uma descrição que simula alguém real e procura colocar fotos que convençam quanto à sua materialidade.
Coincidentemente, me relacionei virtualmente ao mesmo tempo com duas pessoas com as características descritas: uma era um “fake real” e a outra o “real fake” (ou fake malicioso). O fake real criou um fake muito engraçado, com nome de ator de filme pornô. Mas é alguém muito real, que conheço e com quem tenho contato. Como toda pessoa, existem elementos dolorosos em sua vida. Sobre eles, a informação vem em doses homeopáticas.
O fake malicioso se encaixa perfeitamente no perfil identificado pela pesquisa da Cornell. Cheguei a pensar que se tratava de uma mulher simulando ser um homem – preconceito meu – de tão dramático que era o conteúdo de suas mensagens. As dores eram excessivamente dolorosas, as variações de “humor” dignas de um ciclotímico surtadaço e a sensibilidade algo de alguém à beira de um ataque de stress. Lendo os resultados da pesquisa da Cornell vejo como é interessante essa estratégia de criar um mundo ficcional através do “recheio emocional” e “cores fortes de sensação”.
Como assume a pesquisa da Cornell, essa dissimulação é movida por intenção e interesse: o contexto e universo ficcional é criado com o objetivo de estimular o interlocutor a reagir.
Nesse caso especificamente, nunca consegui entender qual era o interesse do fake. Talvez apenas se alimentar da reação do outro – qualquer reação, não importa: raiva, amor, interesse. Talvez seja alguém cuja vida seja infinitamente sem-graça e o poder de gerar uma reação emocional ou intelectual em outra pessoa lhe dê uma sensação de controle que falta na vida real. Mas esse controle só é possível enquanto ele preserva o anonimato, ou falsidade – falsidade que ele negava furiosamente, insistindo em sua materialidade.
Existe um paralelo nada confortável entre esse comportamento e o do serial killer, que em geral é alguém de existência bem medíocre e baixíssimo controle sobre os elementos de sua vida real. O grande prazer está em perseguir anonimamente a vítima (isso em si já é uma forma de controle, já que a vítima ignora estar sendo monitorada), depois atacá-la e em seguida submetê-la às suas vontades, seja por estupro, tortura ou assassinato direto. O prazer desse tipo de psicopata, ou “signature killer”, é o controle em si, e não o jogo sexual.
O fake malicioso que interagiu comigo tinha inegavelmente um sentimento de inferioridade que pingava de suas palavras, mas, na relação comigo, o controle era inteiramente dele. Hoje percebo que esta era sua fonte de prazer: anônimo, sem que eu pudesse identificá-lo, ele sabia tudo e observava tudo sobre mim. E um dia “escapou”: acredito que num acesso de raiva, ele declarou que me “teve” muito mais do que todos os homens que passaram pela minha cama e que só ele, de fato, teve controle sobre mim.
Estranho ...
Marilia