Quando minha filha nasceu eu tinha muito leite. Ela mamava bastante, mas mesmo assim não conseguia dar conta. Meus peitos doíam, duros como pedras, e eu me ordenhava, tirando dolorosamente o leite e congelando. O leite sai fácil quando o bebê suga, mas não quando ordenhamos, não sei direito por que. Em pouco tempo aprendi a arrancá-la de um dos peitos em dois ou três minutos, antes que ficasse totalmente satisfeita, para que ela esvaziasse um pouco o outro. Naquele momento, ela era um instrumento para aliviar meu desconforto. Assim que eu desconectava o bebê do peito, com um estalo por causa do vácuo, ela berrava. Mas imediatamente era acoplada ao outro peito e ficava quieta.
Aquele leite que sobrava se acumulou em potinhos e vidrinhos no freezer, com a perspectiva de que quando eu saísse ela poderia ser alimentada com matéria original. Mas dificilmente isso acontecia, pois eu a levava a toda parte comigo. Então, uma hora eu desencanei de guardar o leite e apenas fazia uma ou outra ordenha, em geral no banho quente para facilitar e jogava tudo fora.
Dava dó.
Eu tinha uma certa noção de que aquilo era algo muito valioso produzido por mim.
Quando a Mel decidiu não mais mamar, me senti meio inútil. Por um ano, produção de leite havia se tornado minha grande atribuição e fiquei um pouco sem identidade. Voltei a produzir textos. Foi quando retomei minha carreira acadêmica e comecei meu doutorado.
Hoje um amigo se indignou comigo, muito decepcionado, e expressou-se através de uma figura de linguagem muito viva para mim. Disse que o que eu havia escrito era como se eu tivesse tirado 20 litros de leite em um minuto (acho que de mim mesma...) e depois chutado o balde. Me veio imediatamente a lembrança dos potinhos inúteis no freezer e depois do líquido branco escorrendo dos meus peitos junto com a água do banho.
Por alguns instantes, me vi novamente como a jovem vaca em plena produção, mas incompetente demais para destinar seu produto nobre a qualquer finalidade. Pensando bem, é um leite derramado, mesmo.
Marilia
Aquele leite que sobrava se acumulou em potinhos e vidrinhos no freezer, com a perspectiva de que quando eu saísse ela poderia ser alimentada com matéria original. Mas dificilmente isso acontecia, pois eu a levava a toda parte comigo. Então, uma hora eu desencanei de guardar o leite e apenas fazia uma ou outra ordenha, em geral no banho quente para facilitar e jogava tudo fora.
Dava dó.
Eu tinha uma certa noção de que aquilo era algo muito valioso produzido por mim.
Quando a Mel decidiu não mais mamar, me senti meio inútil. Por um ano, produção de leite havia se tornado minha grande atribuição e fiquei um pouco sem identidade. Voltei a produzir textos. Foi quando retomei minha carreira acadêmica e comecei meu doutorado.
Hoje um amigo se indignou comigo, muito decepcionado, e expressou-se através de uma figura de linguagem muito viva para mim. Disse que o que eu havia escrito era como se eu tivesse tirado 20 litros de leite em um minuto (acho que de mim mesma...) e depois chutado o balde. Me veio imediatamente a lembrança dos potinhos inúteis no freezer e depois do líquido branco escorrendo dos meus peitos junto com a água do banho.
Por alguns instantes, me vi novamente como a jovem vaca em plena produção, mas incompetente demais para destinar seu produto nobre a qualquer finalidade. Pensando bem, é um leite derramado, mesmo.
Marilia
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