Ontem foi divulgado o fato de que um meteoro de dimensões catastróficas colidirá com a Terra em 2 dias. Naturalmente, os governos já sabiam do fato há alguns anos, mas não poderiam divulgá-lo sem comprometer todas as economias nacionais.
Olho para o lado e vejo seu corpo, repito com os dedos o desenho do dragão das suas costas. Você se vira sonolento e me puxa para você. Já não sinto apenas seu cheiro quando beijo seu pescoço – somos uma mistura de odores: secreções corporais de todos os tipos, meus próprios líquidos, saliva, porra e suor, muito suor. Nos vimos pela primeira vez há 12 horas, assim que você desembarcou em Congonhas depois que o país foi notificado sobre o Fim do Mundo.
Não havia mais desespero nos seus ou nos meus olhos – fizemos nossas pazes com o que quer de incompleto que tenhamos deixado nesta Terra, que mudará de fisionomia em poucos dias. Agora temos apenas um ao outro.
Nos encontramos no aeroporto, sorrimos, nos beijamos. Falamos pouco. Sabemos o suficiente um sobre o outro. Sobre o Fim do Mundo, não há o que comentar. Viemos para casa e imediatamente nos despimos.
Você é meu último amor. O único a quem amarei “para sempre”. O único a quem amarei sem reservas, sem medos, sem proteção. Nenhum dos meus orgasmos foi atrasado ou perdeu intensidade pela nuvem escura do medo da perda. Da dor da rejeição, da raiva do silêncio e do distanciamento. Nenhum dos meus carinhos foi negado por precaução contra uma possível dependência sua, com a qual eu não soubesse lidar. Nenhum pudor, nenhuma palavra suja, porca e obscena foi silenciada, nenhum grito sufocado, nenhum gemido poupado.
Nenhum ângulo de abertura foi medido, nenhuma posição foi sonegada, nenhuma pegada foi hesitante.
Sou sua fêmea, sua mulher, sua irmã, sua mãe, sua filha, sua puta, sua santa virgem, sua Deusa Terra, seu Súcubus. Todas as mulheres em apenas uma, a quem você, pela primeira e última vez pode amar de todas as formas. Desvirginando com toda a ternura a primeira namorada, enrabando a puta mais gostosa ou simplesmente se diluindo dentro de mim, numa explosão de tesão, cansaço e transcendência, ofegando pela boca, escondido no mar dos meus cachos.
Nosso eterno amor tem exatas 48 horas.
Mas não é assim.
Não há nenhum meteoro gigantesco prestes a colidir com a Terra. No entanto, todos os primeiros encontros deveriam ser como se ele estivesse a caminho. Vou chamá-lo, portanto, de Mabon, o mito celta do herói libertador. Que venha nos libertar dos medos e covardias que fazem com que nunca consigamos viver a infinita aventura que acontece AQUI e AGORA.

Marilia