Quando eu era adolescente e militava nos grupelhos de ultra-esquerda, eu era sempre a única garota do “alto escalão” – as tais das “direções regionais”, “nacionais”, comissões disso e daquilo. Em cada um desses sub-sub-grupelhos havia uma ou duas mulheres, no máximo. Não havia nenhuma solidariedade entre elas – pelo contrário. Competiam pelo privilégio duvidoso de serem primeiras-damas e segundas nos segundos e primeiros escalões. A permeabilidade destas organizações autoritárias às questões específicas de gênero é mais ou menos nenhuma. Por isso, entre outras coisas, existe, na esquerda, grande tolerância à violência e discriminação sexual e nenhuma sensibilidade a necessidades especiais das mulheres. Exceto quando a violência sexual é perpetrada por algum adversário político, ela é aceita e até mesmo incentivada. TPM, cólicas menstruais, problemas de administração doméstica mais propriamente femininos, jamais são levados em consideração e seu papel na desvantagem competitiva das mulheres é ignorado.
Claro que a cultura dos grupelhos é uma caricatura de existência muito limitada, mas o machismo hipócrita (esse que é machismo, mas não admite ser) e a insensibilidade com relação às questões femininas são bastante generalizados entre a elite simbólica brasileira.
Passei vinte anos dentro da “academia”, entre universidades, grandes institutos de pesquisa e órgãos governamentais, basicamente colonizados por esta elite. Nestes ambientes, apesar do discurso feminista, prevalece a lógica da falsa igualdade.
Aos poucos, esse tipo de insensibilidade se entranha em nós e aprendemos a fingir que somos todos iguais. Admitir a desigualdade entre os gêneros é algo ligeiramente herético.
Esse assunto ficou enterrado no fundo do meu quintal de dúvidas e ressentimentos até recentemente, quando, por conta de mudanças importantes no meu corpo, as evidências das diferenças voltaram a se apresentar para mim como “algo a se pensar”. A primeira e mais óbvia delas é a TPM. Já escrevi sobre ela em outro lugar e sobre meu incômodo com o tratamento reservado a essa condição em nossa sociedade. TPM não é engraçado, não é frescura, não é controlável e não é irrelevante. Tratá-la como alguma dessas categorias é uma imposição do tal “igualitarismo hipócrita”. Não: não somos iguais. E como sociedade, devemos administrar essa diferença, que não se constitui nem em inferioridade (como é majoritariamente considerado), nem em superioridade (como tentam pateticamente construir algumas feministas de orientação duvidosa).
A outra é a maior labilidade de humor feminina. Seria simplesmente idiota supor que, submetidas a uma verdadeira montanha-russa estrogênica, as mulheres tivessem a mesma variabilidade de resposta de humor que os homens. Não tem, nunca tiveram, nunca terão. Isso também não constitui inferioridade nem superioridade e só é uma desvantagem numa sociedade hipócrita que vive em “denial” quanto a tudo que diz respeito a humor: tanto as variações fisiológicas (como estas provocadas pelos ciclos estrogênicos) como as patológicas (como a depressão, a ansiedade ou a desordem bipolar).
Entre os intelectuais, que fingem ser democráticos e feministas, a auto-afirmação masculina é traduzida por uma fúria competitiva. Nenhum casamento sobrevive a isso.
Há uns dois anos, minhas preferências de convívio pessoal e profissional foram me afastando cada vez mais dessa origem e me aproximando de um outro círculo que é praticamente SÓ masculino. O mundo da maromba é um mundo de homens e isso não se questiona. Sim, existem atletas mulheres. Sim, existem professoras de musculação. Mas, nos projetos relacionados aos esportes de força e fisiculturismo, praticamente não existem mulheres.
Assim, as comunidades das quais eu participo são constituidas de um monte de homens e eu. Como nesses mundos não existe nenhuma preocupação em simular igualdade, talvez porque, por lidarmos com corpos, essa simulação seja ridícula demais, alguns aspectos sobre o papel das mulheres que eu desconhecia têm me chamado atenção.
Por exemplo: homens competem muito entre si, mas não têm o mesmo impulso em relação a mulheres. Assim, as discussões, por incrível que pareça, tendem a ser mais racionais na presença de uma mulher, pois a auto-afirmação masculina fica em segundo plano. Às vezes, nos foruns que eu modero, uso minha condição feminina deliberadamente para apaziguar os ânimos. No meio de uma verdadeira guerra, com trocas de acusações e até ofensas, chamo atenção para o fato de que, visto por uma mulher, aquilo não passa de um concurso de mijo. A discussão imediatamente adquire outro tom e “civiliza-se”.
O outro papel é o da mãe. Mulheres são mães, sempre. Homens aceitam críticas feitas por mulheres que jamais aceitariam se viessem de outros homens.
Nesses ambientes puramente masculinos, ser a única mulher é um pouco confuso. Meus amigos têm uma atitude ambivalente. Um dos meus bons amigos, me apresentando para outro, que ainda não me conhecia pessoalmente, salientou: “pode falar na boa pra ela, a Má é um brother”. E isso foi, sim, um comentário muito elogioso. Esse mesmo amigo conta comigo para discutir questões relativas à namorada porque eu, como mulher, traduzo coisas que ele não consegue administrar.
Eu fico pensando se esse mundo exclusivamente masculino e meio inocente terá que passar por um obrigatório estágio babaca e hipócrita quando se confrontar com mais mulheres. Eu prefiro achar que não. Prefiro achar que, por ser um mundo com corpos e mentes mais integrados e ser mais recente – sim, é um mundo predominantemente jovem – talvez consiga integrar futuras mulheres com mais naturalidade, menos defesa, menos violência e mais harmonia.
Marilia
Claro que a cultura dos grupelhos é uma caricatura de existência muito limitada, mas o machismo hipócrita (esse que é machismo, mas não admite ser) e a insensibilidade com relação às questões femininas são bastante generalizados entre a elite simbólica brasileira.
Passei vinte anos dentro da “academia”, entre universidades, grandes institutos de pesquisa e órgãos governamentais, basicamente colonizados por esta elite. Nestes ambientes, apesar do discurso feminista, prevalece a lógica da falsa igualdade.
Aos poucos, esse tipo de insensibilidade se entranha em nós e aprendemos a fingir que somos todos iguais. Admitir a desigualdade entre os gêneros é algo ligeiramente herético.
Esse assunto ficou enterrado no fundo do meu quintal de dúvidas e ressentimentos até recentemente, quando, por conta de mudanças importantes no meu corpo, as evidências das diferenças voltaram a se apresentar para mim como “algo a se pensar”. A primeira e mais óbvia delas é a TPM. Já escrevi sobre ela em outro lugar e sobre meu incômodo com o tratamento reservado a essa condição em nossa sociedade. TPM não é engraçado, não é frescura, não é controlável e não é irrelevante. Tratá-la como alguma dessas categorias é uma imposição do tal “igualitarismo hipócrita”. Não: não somos iguais. E como sociedade, devemos administrar essa diferença, que não se constitui nem em inferioridade (como é majoritariamente considerado), nem em superioridade (como tentam pateticamente construir algumas feministas de orientação duvidosa).
A outra é a maior labilidade de humor feminina. Seria simplesmente idiota supor que, submetidas a uma verdadeira montanha-russa estrogênica, as mulheres tivessem a mesma variabilidade de resposta de humor que os homens. Não tem, nunca tiveram, nunca terão. Isso também não constitui inferioridade nem superioridade e só é uma desvantagem numa sociedade hipócrita que vive em “denial” quanto a tudo que diz respeito a humor: tanto as variações fisiológicas (como estas provocadas pelos ciclos estrogênicos) como as patológicas (como a depressão, a ansiedade ou a desordem bipolar).
Entre os intelectuais, que fingem ser democráticos e feministas, a auto-afirmação masculina é traduzida por uma fúria competitiva. Nenhum casamento sobrevive a isso.
Há uns dois anos, minhas preferências de convívio pessoal e profissional foram me afastando cada vez mais dessa origem e me aproximando de um outro círculo que é praticamente SÓ masculino. O mundo da maromba é um mundo de homens e isso não se questiona. Sim, existem atletas mulheres. Sim, existem professoras de musculação. Mas, nos projetos relacionados aos esportes de força e fisiculturismo, praticamente não existem mulheres.
Assim, as comunidades das quais eu participo são constituidas de um monte de homens e eu. Como nesses mundos não existe nenhuma preocupação em simular igualdade, talvez porque, por lidarmos com corpos, essa simulação seja ridícula demais, alguns aspectos sobre o papel das mulheres que eu desconhecia têm me chamado atenção.
Por exemplo: homens competem muito entre si, mas não têm o mesmo impulso em relação a mulheres. Assim, as discussões, por incrível que pareça, tendem a ser mais racionais na presença de uma mulher, pois a auto-afirmação masculina fica em segundo plano. Às vezes, nos foruns que eu modero, uso minha condição feminina deliberadamente para apaziguar os ânimos. No meio de uma verdadeira guerra, com trocas de acusações e até ofensas, chamo atenção para o fato de que, visto por uma mulher, aquilo não passa de um concurso de mijo. A discussão imediatamente adquire outro tom e “civiliza-se”.
O outro papel é o da mãe. Mulheres são mães, sempre. Homens aceitam críticas feitas por mulheres que jamais aceitariam se viessem de outros homens.
Nesses ambientes puramente masculinos, ser a única mulher é um pouco confuso. Meus amigos têm uma atitude ambivalente. Um dos meus bons amigos, me apresentando para outro, que ainda não me conhecia pessoalmente, salientou: “pode falar na boa pra ela, a Má é um brother”. E isso foi, sim, um comentário muito elogioso. Esse mesmo amigo conta comigo para discutir questões relativas à namorada porque eu, como mulher, traduzo coisas que ele não consegue administrar.
Eu fico pensando se esse mundo exclusivamente masculino e meio inocente terá que passar por um obrigatório estágio babaca e hipócrita quando se confrontar com mais mulheres. Eu prefiro achar que não. Prefiro achar que, por ser um mundo com corpos e mentes mais integrados e ser mais recente – sim, é um mundo predominantemente jovem – talvez consiga integrar futuras mulheres com mais naturalidade, menos defesa, menos violência e mais harmonia.
Marilia
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