Tenho vivido ou empurrado com a barriga uma série de problemas pequenos e grandes. Tenho uma lesão e meia me importunando, as quais tenho tratado com seriedade relativa, através de eletro-acupuntura e um monte de analgésico e anti-inflamatório, já que não parei de treinar e sofro dor; tenho que tomar algumas decisões que, não adianta mais tampar o sol com a peneira, implicam projetos de vida muito diferentes um do outro; tenho, nesse tocante, confrontado minha paixão e vocação, ambas na rede de projetos envolvendo Paraisópolis, a mulecada de lá, e o esporte, e a necessidade de garantir um grau mínimo de responsabilidade financeira (e essa não sei onde ponho); tenho, embora muito bem assessorada, tido que lidar com uma encrenca comercial; tenho fingido que a vida é só um grande oba-oba, que afeto não existe e que a vida é apenas “sexo, drogas e rock’n roll”.
Os sinais de que esse malabarismo com bolinhas problemáticas não ia durar muito tempo e uma hora elas iam cair uma por uma no chão já estavam aparecendo. Meu sono, que estava tão maravilhoso até umas duas semanas atrás, ficou uma caca. Voltei a tomar uns valiuns de vez em quando. E de de vez em quando passou para quase de vez em sempre.
Pequenos itens ansiogênicos foram se acumulando. Depois de uns anos longe da universidade, descobri que os canais para freelas como eu estão praticamente fechados, sem brechas. Tive contatos desagradáveis, desde os chefetes inescrupulosos de sempre tentando se aproveitar da minha condição outsider, me forçando a buscar recursos para engordar suas próprias contas e poderes locais, até “amigos” e ex-amantes ironizando minha falta de habilidade em me adequar às relações de poder e às camas do ambiente acadêmico.
Se fosse só sexo, seria apenas escroto, mas são estupros que envolvem mais que isso, outras formas de violentar o indivíduo, algumas que considero piores que dar o rabo para alguém por quem temos nojo.
Mesmo assim, só meu sono sofreu – continuei, como diz a Mel, no meu maior estilo “bola pra frente”, passando de um “não” ao outro e fazendo mais contatos. Sem problemas: uma hora tem que dar certo, deve ser possível organizar a vida de forma minimamente digna e ética. E claro que continuei treinando (para ser sincera, com pequeno sinais de overtraining) e me preparando para competir.
Chegou o dia de um dos campeonatos – a Copa São Paulo de Supino, realizada em Itu, na Academia Fábrica, organizada pelo grande Valdecir Lopes. Fomos em um galera razoável da GCA, para trabalhar e alguns de nós competir também. O lugar é muito legal, o hotel era confortável e fiquei com duas das minhas meninas adoráveis, Geisia e Elizângela, a quem intoxiquei no primeiro dia após algumas cápsulas de laxante para garantir o peso certo. Como elas são adoráveis, nem reclamaram (e nem desmaiaram, atletas que são). No dia seguinte, fomos à luta, pesei, constatei que torturei as meninas desnecessariamente, já que meu peso estava baixo, e competi. Fiquei bem contente com meu resultado: apesar da lesão incomodando muito (muito mesmo), fiz 72,5kg, ganhei o open da categoria de 56kg, o master da mesma categoria, o título de melhor atleta master (pela fórmula de Wilk’s) e o título de melhor atleta feminino absoluto (esse eu curti muito). Acho que o Gilson esperava mais de mim, lembro que antes da lesão ficar ruim ele especulava até uns 80kg, mas não acho que o decepcionei tanto.
Depois de competir, soquei um feldene e uma hidrocodona e já era – fui trabalhar na mesa. Me dei ao luxo de um banho entre duas sessões, tomei um sorvete tão grande que nem consegui terminar e fui jantar uma quantidade absurda de carne na companhia hilária e aconchegante dos amigos Mendinho e Batista.
Era bom demais para ser verdade.
No dia seguinte, indo para a Fábrica, peguei uma contra-mão. Uma que, depois fiquei sabendo, quase todos os paulistanos pegaram. Só que dei azar e fui de cara com a polícia. Me pararam, pediram os documentos e eu estava tranqüila. Afinal, tinha pedido o carro de minha mãe emprestado e ela tem sempre toda a documentação em ordem. Só que não estava. O licenceamento, vencido dois meses antes, não estava pago. O policial me informou que o veículo seria apreendido. Toda a impáfia que eu exibia até aquele momento, dizendo que a contra-mão não estava sinalizada e que eu recorreria da multa, caiu. Disse que era impossível, pedi que verificassem e liguei para São Paulo. Tinha certeza de que se tratava de um engano. Falei com minha mãe enquanto os policiais, agora em dois carros, consultavam os registros do Estado. Era verdade: minha mãe havia esquecido de pagar por um motivo bobo e o despachante não a lembrou.
Eu olhava os policiais, discretamente sorridentes. Olhei para baixo, pensei e caminhei até o carro. Pedi aos três atletas comigo que fossem à pé até a Fábrica e tocassem as coisas por lá, que o problema havia ficado sério. Voltei e tentei adotar outro tom. Não sei fazer cara de coitadinha. Não sei usar a linguagem da corrupção. Mas tentei sugerir que pudéssemos discutir alguma “flexibilização”. Como eu disse, não sei usar essa linguagem. O policial praticamente me disse que se eu tentasse suborná-lo, me prenderia. Aí eu não disse mais nada: liguei para o Gilson, que acionou o pessoal local e em cinco minutos metade da Federação Paulista de Powerlifting estava ali.
Era difícil acreditar que uma merda tão grande estivesse acontecendo depois de um dia tão legal. Eu tinha raiva. Mil coisas passavam pela minha cabeça. Com um país com seríssimos problemas de criminalidade, acidentes de trânsito pavorosos, carros com irregularidades monstruosas, estávamos ali, com duas viaturas mobilizadas para realizar a apreensão do Ford K de propriedade de uma senhora de 80 anos de idade, dirigido por uma atleta saudável, com um licenceamento com dois meses de atraso. O procedimento foi legal? Perfeitamente. Mas contextualmente ridículo.
O policial, vendo-se cercado de homens fortes, grandes e claramente envolvidos com algo importante e agradável, percebendo que atrapalhava e estressava a todos, se sentia bem. Via-se paz e gozo em seus olhos e expressão. Esse era o seu ambiente. Lembrei dos “pequenos poderes”. Pensei na vida medíocre e frustrante que ele deve ter e de como aquele momento era significativo: ele, ali, um João Ninguém, atrapalhando umas dez pessoas que se reuniam para fazer algo apaixonante num domingo.
Minha raiva foi virando impotência. Não havia nada que eu pudesse fazer. Meus músculos descontraíram. Meus olhos relaxaram. Veio a culpa. Olhei para o Gilson, para o Cesão, cujo lugar era na organização do campeonato e me senti uma merda. O pouco que tentei ajudar se transformou em estorvo. Eu sou, realmente, uma incompetente. Não presto para nada.
Quando cheguei à Fábrica, já me sentia o cocô do cavalo do bandido.
Fiquei encolhida, num canto, remoendo meus maus sentimentos. Minha dor de lesão latejava, insuportável. Tomei outro feldene, outra hidrocodona e procurei um valium. Não tinha ali: estava no hotel...
Ainda fiz alguma coisa útil, fiz a lista do pessoal que irá ao Sulamericano de Montevidéu para depois pesquisar passagem, pedi ao Marcelão (Marcelo Soares) que demonstrasse o uso da camisa de supino e ele e a Dora foram gentilíssimos mostrando com detalhes para que eu fotografasse para a matéria que vou fazer para o Iron.
Mas não teve jeito: algo em mim caiu ali. Todos os problemas afloraram, como aqueles brotos de alfafa num solo aparentemente estéril. Viraram uma grande macarronada, dando nós uns nos outros. Todos pareceram insolúveis. Confesso que tive fantasias que me custa muito admitir serem suicidas. Sem muita depressão ou tristeza, mas desejei desaparecer, sumir, parar de existir.
Isso tudo porque... por que? Porque um guardinha do interior precisava do orgasmo simbólico dele? Porque o carro foi apreendido? Não: porque empurrei com a barriga, sem me deixar sofrer ou me dar o direito de sentir raiva e frustração, um monte de problemas por tempo demais. E agora eles parecem cosmicamente integrados, de modo que só consigo vê-los de uma maneira holística.
A verdade é que não são, nasceram de lugares diferentes e cada um tem sua história. A única coisa que têm em comum sou eu – o resto é casualidade. Entrei na mesma contra-mão que o Eric e a Rose – não foi um deus malvado, mas o puro acaso que me fez encontrar com a polícia. Não deu certo minha sociedade na empresa: sete entre dez amigos empresários me relataram o conflito irreversível com o primeiro sócio. E nenhum deles entrou na contra-mão em Itu. Não sei amar, não sei ser amada: legal. Quem sabe? E nem todos os que sabem são empresários. Minha lesão dói: é só a segunda lesão mais freqüente de membros superiores registrada pela ortopedia – definitivamente, não estou sozinha. E comprimir o nervo não é sinal de stress, não tem a ver com entrar na contra-mão, tem pouquíssima relação com o licenceamento do carro da própria mãe e não se correlaciona com a capacidade de amar.
Enfim: fica tudo mais simples se não for complicado, certo?
Marilia