Apagão é sempre chato, especialmente quando temos certeza de que podem ser prevenidos por pessoas que não cumprem suas obrigações profissionais, instituições podres sustentadas por quem cumpre, entre outras indignidades contemporâneas. Mas é mais chato quando se está recuperando de uma cirurgia complexa e arriscada no joelho, que faz com que qualquer queda seja catastrófica.
Eu não caí. Nem cairia. Mas pensando bem, a probabilidade era alta: sozinha, recém operada, no escuro total. Se eu fosse um ser humano, e não uma levantadora de peso, poderia facilmente ter me desequilibrado e caído. Caído e danificado a estrutura reconstruída. Tentado me arrastar até o telefone, no escuro, sem saber a quem chamar, pois no escuro não enxergo agendas.
Quem pagaria por isso?
Ninguém.
Hoje é dia 15 de novembro. É algum tipo de feriado, pelo que lembro. Ou não. Choveu muito, o jornal deve estar um tijolo denso de papel grudado e molhado lá fora. Ainda que não estivesse, ir até lá para pegá-lo não é tão automático, há apenas cinco dias da minha cirurgia de reconstrução de ligamento do joelho.
Não sei o que aconteceu ontem no mundo, não tenho notícias sobre a queda do Rodoanel na Regis, não sei nada sobre a repercussão da condenação de Rebeca Gusmão. Poderia usar a internet, conectar a Folha de São Paulo ou UOL. No entanto, minha conexão a cabo, a tal de Net de Osasco ou Bindnet, que sempre foi uma droga, hoje permaneceu inerte. Muda.
Como profissional previdente, tenho uma segunda conexão: um modem 3G da Claro. Nunca conectou direito aqui em Osasco. Dos 500bps que pago, não alcanço nem 20% dessa velocidade nesta localização. O mais interessante é que hoje o modem simplesmente não achou sinal – o dia inteiro.
Depois do apagão do dia 11 de novembro, meu telefone celular praticamente não funciona. Não que eu apreciasse usá-lo. Não gosto. Não gosto de telefones. Obviamente, no entanto, tinha sua utilidade. Era uma conexão. Agora, se ele toca (“se”, pois boa parte das vezes as ligações caem direto na caixa postal), mantém uma conexão fraca e cortada por alguns segundos, depois dos quais a ligação é interrompida.
Meu telefone fixo é intermitente. Às vezes funciona, às vezes não. Em geral, com ruido.
Talvez por isso eu não me incomode com o fato de que a campainha lá fora deixou de funcionar há meses e eu nunca a substitui. Nunca senti falta dela. Pelo contrário: a pior coisa que existe é ser interrompida no meio de um trabalho. Quem quiser entrar em contato pode me enviar um e-mail. Ou telefonar.
Hoje, no entanto, não.
Isso me incomoda? Pensando bem, não. O que realmente me incomoda é não ter na ponta dos dedos a informação que quero, no momento em que preciso. É muito chato não saber quem empregou técnicas de Pilates na preparação esportiva de alto rendimento, quais as últimas informações sobre o colapso da rede de telecomunicações e as mais recentes publicações sobre cirurgia de reconstrução de ligamento.
Isso incomoda. O silêncio, o barulho do circulador de ar, a penumbra da sala sob cortinas de bambu que abaixei para assistir um filme – estas são bençãos.
Conexão, para mim, é o meu canal de acesso à informação. Não a pessoas, e muito menos delas a mim.
Somos humanos – todos temos dores ocultas. Não é possível chegar à idade adulta sem elas. Elas existem em vários níveis. Algumas são tão profundas que sequer temos consciência delas. Outras são tão inacessíveis que não conseguimos, sozinhos, fazer os curativos. Como aquela espinha inflamada no meio das costas, no ponto em que você não alcança. Dói e coça, o tempo todo, e você nada pode fazer.
Dores vêm em todas as formas, cores e tamanho. Algumas são tingidas de trauma, outras de culpa e outras tantas pela tortura da dúvida. A pior de todas as dúvidas é a dúvida sobre si mesmo. Jogue a primeira pedra quem nunca se sentiu uma fraude em alguma coisa. Nem que seja em campeonato de cuspe à distância: ganhei mesmo ou foi o vento? Sorte? É mérito meu ou meus olhos verdes seduziram quem julgou?
Entre nós, que fomos militantes da esquerda no tempo da ditadura, há uma lenda urbana sobre um sujeito que foi torturado nos porões da ditadura e foi parar em Paris, exilado. Lá, sofreu um acidente e ficou estatelado no meio da rua, em dor. Ninguém abaixou-se para ajudá-lo. Ninguém lhe deu a mão ou sequer o olhou com solidariedade. Conta-se que o ex-militante chegou em casa e se matou, pois uma epifania lhe ocorreu: a humanidade, por quem tanto sofreu e sacrificou a vida, era constituída de um bando de monstros egoístas. O potencial humano previsto por Marx era mera ilusão. Tudo em que acreditava era mentira. Num único golpe, o sentido da vida lhe foi usurpado, e ele morreu.
Ele morreu porque, no duro teste da fé, ele foi vencido.
Uma vez, minha filha definiu fé como a capacidade de se empenhar em algo ainda que sem base empírica ou racional. Usamos a metáfora do caminhão na ladeira. Se a tarefa é empurrá-lo ladeira acima, você o fará, ainda que nada sugira seu sucesso. Na metáfora, ela acrescentou elementos: você sabe que tem uma galera dentro do caminhão e, se virem você empurrando, vão descer e ajudar. Gostei da imagem. Mas acrescento outra, que derivei de palavras de Madre Teresa de Calcutá: não importa o sucesso da empreitada. Não importa o que pensam de você. Diz ela “you see, it was never between you and them – it was always between you and God” (veja,(a questão) nunca foi entre você e eles – foi sempre entre você e Deus).
O que vou relater aqui foram testes de fé. Decidi fazer isso porque creio que todos passamos por isso. Mais cedo ou mais tarde, de forma mais ou menos grave. Muitas vezes vem pela boca de alguém. Vou chamá-lo de Demônio, não num sentido religioso, ou pelo menos não dogmático. O demônio, em filosofia, é a fonte de argumentos que força o sujeito a duvidar de verdades importantes através de uma maneira de apresentar a evidência empírica. O demônio no sentido religioso não é muito diferente: Jesus e Buda foram ambos tentados por demônios quando mais perto estavam de um momento crítico em suas missões. No caso de Jesus, o demônio foi quase cartesiano: desafiou-o a demonstrar sua divindade. Ou seja: teve como objetivo plantar a dúvida e convencer Jesus de sua própria natureza fraudulenta.
Penso eu, em minha humilde humanidade, que estas estórias, mitos e literatura filosófica servem também para nos preparar – a cada um de nós – para os testes de fé.
Anos atrás, um destes demônios se materializou sob a forma de uma mulher em um laboratório. Ela não era a chefe do laboratório, mas como eu era uma estudante de graduação, fui entregue a ela como orientanda. Um dia ela me chamou, admitiu que a competição comigo era insuportável (eu havia descoberto um receptor importante para uma certa proteína), que meu comprometimento com a pesquisa era profundo mas infelizmente a ameaçava. E, portanto, ela tinha elaborado um complexo plano em que espalhou frascos de células em cultura no chão, atribuindo a “loucura” a mim. Atribuiu discursos delirantes que comunicou ao chefe do laboratório, envolvendo sexo e traição. Levantei-me imediatamente para confrontá-la com o chefe. Ela riu, calma e sádica, e disse que havia esperado pacientemente que ele viajasse para a Argentina para que eu não tivesse chance de fazer isso. Disse que quando ele voltasse, seria o tempo para que a depressão tomasse conta de mim e eu me conformasse em ter perdido tudo: o tema e a pesquisa que eu amava. Terminou dizendo: “Marilia... não se suicide, ok?” E riu. Ela sabia que eu havia tomado uma decisão importante e aberto mão de fazer meu doutorado na NYU para trabalhar com tripanossomas no Brasil. Tirou tudo isso de mim. Eu tinha 21 anos - 1984. Não passei no teste de fé e mergulhei por cinco anos em drogas.
Vieram outros testes. Um foi interessante. Me foi dada a dúbia responsabilidade de ajudar uma mulher em sua luta contra desordens mentais. O processo envolveu provocações e encheções de saco. Num certo momento, me irritei e devo ter dado um chega pra lá. A resposta dela foi um longo diagnóstico da minha própria condição mental e outro de que minha relação com o esporte era o cerne desta patologia. Isto é um teste de fé. Neste momento em que eu apostava todas as minhas fichas na integração da minha pessoa através da atitude marcial com o corpo, o demônio questionou a estratégia. Não seria melhor admitir que isso é a doença, aceitá-la e junto com ela as lâminas, a overdose e a morte? Isso foi em 2005.
Agora, houve um grande teste de fé. Tomei a iniciativa de terminar uma relação já tão contaminada por mentiras e fantasias ruins que não havia mais espaço para construir nada. Numa reação de ódio, o homem passou a me assediar com agressões por escrito. Me chamar de burra não dói. É um pouco engraçado. Dizer que perdi minha beleza por descuidado já é um pouco pior: minha pele está uma merda, vivo brigando com ela e a semana passada fui novamente à dermatologista para um longo tratamento. Coisas do stress e outros problemas. Dizer que não sei amar, que não amo minha filha e nem meus cachorros já pega uma veia séria. Qual pai ou mãe não têm pelo menos um pouco de sentimento de culpa? Eu tenho. Com filha e cães.
Insultos como chamar de puta, de débil mental e outras gentilezas passa batido depois destes golpes.
Mas o teste de fé veio com esta frase: “você precisa desesperadamente do powerlifting, Marilia, mas o powerlifting não precisa de você”. Por dias ruminei isso, mesmo com amigos me alertando sobre a natureza do ataque. E então: é missão ou ego? Estou mesmo seguindo uma luz maior ou sucumbindo à tentação egóica? Sou uma fraude como missionária? Se sou, do que vale a vida? Se não vale... melhor acabar com ela?
Por algum tempo, a escuridão foi instaurada com o mundo de pesadelo e perdi o chão. Acreditar que ainda assim existe o Sol e a Grande Mãe está sob os meus pés veio através da frase de Sorensen, no filme Power Unlimited:
“Powerlifting can be a casual hobby or a daily obsession. But, like all good things in life, you'll get out of it, what you put into it.”
POWERLIFTING PODE SER UM HOBBY INFREQUENTE OU UMA OBSESSÃO DIÁRIA. MAS, COMO TODAS AS COISAS BOAS DA VIDA, VOCÊ LEVARÁ DELE O QUE DER A ELE.
Ponha amor, tesão e dedicação no powerlifting e é isso que ele lhe dará.
O powerlifting precisa de todos nós que podemos colocar nosso amor nesse esporte. Nosso amor sob forma de alegria, felicidade, saber, solidariedade, ajuda ao irmão do tablado. O powerlifting precisa de mim.
E assim eu entendi que o Sol brilha, mesmo que às vezes fique escuro, e a Grande Mãe oferece seu sólido substrato, apesar de tudo, apesar dos demônios. Estes são importantes, pois nos fazem crescer. Sou grata ao demônio.
Estou esperando dar o prazo (nunca cumprido) das 10:30h para que volte a energia elétrica e eu possa ter acesso aos arquivos do servidor. Isso aqui é o notebook e essa conexão é um modem 3G da Claro, de 500kbps. Aqui eu também tenho uma conexão a cabo de uma empresa mequetrefe chamada Bindnet – não tem Virtua nem nada aqui onde eu moro. O site deles é http://www.bindnet.com.br/ . Como podem ver, nem SAC tem. Ligações para informá-los de que o sistema caiu (cai umas três vezes por dia) são cobrada. Por isso, desisti: tenho o modem para quebrar o galho.
Modem 3G pega muito mal aqui. Dizem que é da região: por uma rua, moro em Osasco, quase na fronteira de São Paulo. Não em Rondônia ou Xingu. Numa região altamente industrializada e com comércio de grande porte. Parece que é esse o problema: a atividade econômica de Osasco cresceu demais e a infra-estrutura não acompanhou. Será?
O fato é que quedas de energia e internet de velocidade menor que 20% da contratada são um estorvo. Não posso baixar arquivos de que preciso para trabalhar, não posso assistir videos técnicos, às vezes necessários para corrigir a forma de execução de um atleta e todas as operações são lentas. Já tentei Speedy: não chega aqui. Tudo funciona mal.
Eu morei anos fora do Brasil, mas não sou uma recém-chegada. Apenas me recuso a me acostumar com aquilo que não deveria integrar o cotidiano de quem paga por serviços e não recebe. Cada hora sem energia elétrica, para mim, é dinheiro perdido. Cada kbps a menos do que eu contratei – e pago – é dinheiro roubado do meu bolso. Mais que tudo, é um stress de dimensões difíceis de avaliar – pois contínuo, paulatino – que vai minando as resistências de alguém que necessita dessa infra-estrutura para trabalhar. De um profissional da área da informação e pesquisa, como eu, então... Quem paga a conta disso?
Eu claro. Esse são os que chamo de pequenos grandes escoadouros de grana e energia. Pode-se administrá-los, minimizar o stress, mas acho errado tolerá-los. Isso é abrir mão de direitos e deixar de cobrar compromissos que todos temos que cumprir. O primeiro direito é não ter sua estrutura (pessoal e de trabalho) invadida pela incompetência corporativa ou privada alheia. O segundo direito, é receber pelo que se paga. E o compromisso não cumprido é o serviço não entregue.
Eu nunca fui normal. Caetano questionou o mito da normalidade predominante com poesia, dizendo que de perto, ninguém o é. A verdade é que normalidade é um conceito de alto valor heurístico e diz algo sobre a realidade: a distribuição das caracaterísticas social e fisiologicamente relevantes é contínua e forma uma curva normal. Assim, ser homem brasileiro e ter 1,72m é normal. Ter 1,56m ou 2,10m não é.
No que diz respeito a comportamento, a coisa complica bastante. Ainda assim, vale o conceito de normalidade. Nesse caso, ela é perversa: a normalidade é o que se aproxima de um padrão cultural, portanto arbitrário, portanto criado e portanto prenhe de interesses. Tratando-se de uma sociedade complexa e estratificada, os interesses são de dominação – e, portanto, não são “do bem”. Ser normal não é do bem. É do mal. Mas é muito útil e providencial: garante que o indivíduo sobreviva e não seja punido.
A socidade vigia e pune (deus me livre citar...). Pune quem não é normal. A punição é difusa: vem desde mecanismos institucionalizados de punição até a punição da rejeição dos pares, da hostilização pública, do ostracismo.
Eu nunca fui normal – eu sempre fui punida. Por escolas, família e outras instituições e também pelos grupos. Minha resposta sempre foi o isolamento e a violência, se confrontada.
Eu nasci errada. Meu cérebro tem um defeito de fábrica, assim como o pâncreas, a amigdala, o sistema de marcapasso cardíaco e talvez o hipotálamo. O pior mesmo é o neocórtex. Eu sou bipolar. O preço é a dor, a preplexidade do estranhamento na comunicação impossível e as tempestades elétricas que atrapalham as idéias. Dizem que o prêmio de consolação é a tal genialidade, que questiono até se existe.
Quando a gente é criança, ainda tenta ser normal, ou pelo menos disfarçar. Não adianta: a professorinha medíocre tem receptor para criança “diferente”. A vida de alguém como eu começa com a hostilidade da professorinha fofa. Depois vêm as mães. As mães das outras crianças (os pais da gente também preferiam que não existíssemos), depois as mães dos amigos e por fim as mães de namorados e companheiros. Elas farejam a nossa anormalidade, e atacam com suas armas estranhas. Por trás de sua institucional fragilidade, há um tipo de violência com a qual gente externamente forte como eu não tem como lidar. Elas não tem a razão, nem a lógica, nem os músculos e nem o controle mental: elas tem algo muito pior. Têm a hostilidade silenciosa, o ataque irracional, a agressão gratuita – passiva ou ativa – e a mentira. Armas letais.
Todas as mães me odiaram, desde sempre.
Hoje, uma pessoa afetivamente muito significativa para mim pediu-me que não fosse à comemoração de seu aniversário, onde estarão os amigos “de verdade” e... a mãe (ou os pais). Eu não sou “de verdade”. Sou uma ficção clandestina, um rato sujo e contaminado no mundo arrumado dos normais. Muita gente se fascina com isso. Estar do meu lado nos meus ambientes é uma aventura – afinal, qualquer mundo que me aceite é meio maldito, como eu. Mas eu não sou admitida no mundo deles. Eu nem existo no mundo deles. Se estão comigo e dão satisfações aos pares normais, inventam lugares, nomes, me dão codinomes variados. Tudo para sumir com o registro da minha presença no arrumado mundo dos normais.
O rato sujo e contaminado tem um fascínio: ele fica estranhamente vivo e constrói ninhos sob condições que matariam os normais. Ele ameaça de contaminação o mundo dos normais. A ameaça é um risco, e o risco é excitante. Mas sempre sob controle.
O rato sujo habita o porão do navio que vai para a Disneylandia, toda lipinha e falsa. O mundo do rato sujo é sujo e real demais.
Eu gostaria que esse navio afundasse. Comigo dentro, tudo bem. Eu já cansei, mesmo.
Indo para a feira, hoje de manhã, para comprar gelo para o joelho, pensei em você e na espacialidade mineira. Acho incrível como a gente tem que se deslocar de uma cultura espacial para sequer se dar conta de que existem outras. Hoje é a coisa da lateralidade, ou "direita e esquerda", e da incrível representação mental do espaço.
Perguntei onde se comprava gelo. "Fácil: logo ali". Era perto da feira.
- "ocê vai ino lí praquel lado de lá da Igreja. Ocê vai chegar numa pirambeira - não pega ela, não! Aí ocê vira 'assim' e se informa melhor perto da feira"
- "viro à direita?"
- ???
- "tudo bem, brigadão"
Direita e esquerda não fazem sentido aqui. Virar é virar. Não importa o lado. Você que se vire para descobrir. O importante é que "virar" é diferente de "ir em frente", a ponto da pessoa chamar minha atenção para NÃO pegar a pirambeira.
Os marcos espaciais são importantíssimos aqui, mas não necessariamente para indicar uma ação: "ocê vai ino... aí aqui do seu lado vai ter uma ingrejinh azul e uma entrada. Não é ali, não! Aí ocê vai ino mais um pouco e passa um mata burro co otra entrada - não é ali, não! ocê continua reto! vai ino..."
Isso aqui onde eu estou é, como eu disse, "o" hotel da cidade. Diz que durante a semana tem muito vendedor que se hospeda aqui. Mas no final de semana... é zona mesmo. Muito interessante, porque a privacidade é próxima de zero, uma vez que fica na praça central, na frente da Igreja Matriz e na área de maior movimento da cidade. Deve haver alguma lógica nisso que me escapa. Tem duas TVs no meu quarto - não testei nenhuma, mas tem duas. Tem água quente, bom chuveiro e um rodo para vc mesmo limpar o banheiro, já que não há cortina plástica ou box.
O café da manhã é pão, queijo, presunto, leite, café, chocolate, bolos e suco. Normal, legal. E a diária é 20 reais.
Hoje, enquanto esperava o pessoal para me pesar (em jejum), fiquei observando o "matinh" ao lado do ginásio. Primeiro, um monte de andorinhas pequenas fazendo muito barulho. Há anos não via tantas andorinhas. Elas sempre me parecem de louça (por causa do contraste entre a parte muito branca e a parte muito preta). Depois de pesar, voltei para o hotel, tomei café e retornei ao ginásio. As andorinhas haviam sido substituidas por canários. Alguns MUITO amarelo-ovo. Muitos canários.
Achei que competi bem, especialmente quando me compenetrei de que devia encarar aquele evento como um treino pesado e um teste para minha nova e obrigatória técnica, imposta pela lesão do joelho. Perdi um pouco do controle, mas até aí, o Renato tem razão: supino é meio cabalístico. Fiz 115kg fáceis depois de errar 115kg. E aí errei 120kg. Não faz mal: as pessoas ficaram felizes, eu fiquei feliz, eu aprendi bastante e de lambuja ganhei na minha categoria, estabeleci novo recorde nacional e levei mais o prêmio de melhor atleta absoluta. Não é fodástico, eu podia ter tido um desempenho melhor, mas é legal, é a festa da comunidade.
É isso - amanhã tento acordar cedo e voltar a Sampa a tempo de honrar meu horário de consulta com o gastro, para quem nem sei o que falar: "oi, eu tive umas diarréias horríveis, com febre, mas passaram em um dia misteriosamente...".
Inté e beijos
Marilia
“Olha que engraçado, Leo: o modem da Claro até pega mais ou menos, mas o celular não (vivo). Estou em Cabo Verde, uma cidade tão pequena, tão escondida no mapa de Minas Gerais, que nem placa indicativa tem. Aliás tem; quando você erra e passa o "trevinh'" onde "tim qui intrá", a placa aparece, de costas. Perguntei para um policial rodoviário uma indicação e de lambuja, por que não havia placas. Ele: "ah... é muita cidadizinh' pequenininh' - não teria como ter placa para todas". Então... basicamente você chega pelo faro. Confesso que perto de Poços de Caldas me deu um pouco de desespero ao perceber que no meio desse laconismo geo-referencial, meu celular vivo não pegava antena.
Cabo Verde fica numa estradinha vicinal, 20km após Botelhos, estradinha essa que sai de um 'trevinh'" de uma outra estradinha vicinal... de uma outra estradinha vicinal... que deriva de um grande "entroncamento" (em Mineirez, o entroncamento é um "trevinh" grande, só que grande pra caralho para dimensões paulistas). Também descobri que "logo ali" é mais ou menos há uns 15km de onde você está: "Cabo Verde? Fácil: ocê pega o trevinh logo ali à direitt'".
Outra coisa legal são as placas de "trevo a 300m". Você le a placa e fica esperando. Três quilômetros depois aparece de novo: "trevo a 300m". Talvez o metro mineiro seja diferente do metro paulista, como tem o alqueire e o alqueirão, etc.
Na hora em que você sai da D. Pedro I, você percebe que atravessou a fronteira. Não aquela que separa SP e MG: outra. Uma que separa o urbano do rural, o apertado do amplo, o apressado dos "tempos largos". Ninguém entendia por que eu estava tão estressada de ter perdido o "trevinh". Já que estava "logo ali". Mas estava: estava na vibe do livro atrasado, da tradução atrasada, do projeto atrasado, do canteiro de obras, das contas apertadas, das pessoas cobrando prazos. Tanto que comecei a entrar em pânico ao me dar conta de que não podia ligar para o meu amigo daqui com um celular eternamente "procurando rede". Até que me toquei: estou no meio de um enorme pasto. Com esse stress todo, deixei de sentir o cheiro das coisas. Um céu azul imaculado, vaquinhas pintando ondulações montanhosas perfeitas, cagando aquela bosta de odor tão caracteristicamente herbívoro, cana, cana, cana... depois café, café, café... depois coisas aleatórias, cerrado, queimada em beira de estrada. Enfim: o mundo. Como ele é, não como imaginamos. Com complexidade de ritmos e não relógios esquizofrênicos. Temporalidades que jamais podem se combinar, principalmente combinar com a gente.
Enfim, estou em Cabo Verde e pensei em como escreveria isso se fosse postar algo nos meus obrigatórios blogs in English. Que tipo de cabo é o cabo de Cabo Verde? Não deve ser um "handle", nem um pedaço de pau. Deve ser um contorno, como "Cabo da Boa Esperança". Green Cape. Ou Green Turnpike. Viajei em metáforas existenciais. Depois desviajei.
Comi bife com salada e feijão em Cabo Verde. Enquanto comia, uma galera petiscava algo com cerveja escutando um rock de bom gosto tocando no som de um carro aberto. Um moço num fusca azul gentilmente me acompanhou até a praça da Matriz para me guiar até o Hotel ("o" hotel...). Enquanto escrevo isso, sinos da Igreja da Matriz batem.
Isso é gostoso.
Beijos
PS - acho q vou transformar essa carta pra vc num post do blog.”
Desde a semana passada estamos em reforma aqui. Tudo começou com um brotamento de água no quintal, suspeito de cano furado. Era. Cavando, apareceu uma conexão bizarra, aparentemente largada ali por algum prestador de serviço relapso, numa interpretação benigna, ou não, numa interpretação mais atenta. Metros além, um buraquinho. O buraquinho, pesquisado pelo Adalberto, mostrou ter pelo menos 3m de profundidade. Na área ao redor, rachaduras pelo chão, no muro e perigosamente na linha de um padaço ruido do chão da varanda. Urgentemente iniciou-se uma mega-operação de pesquisa e restauração. O que havia embaixo do “buraquinho” era uma enorme fossa de 3m de profundidade por 1,5m de diâmetro, não escorada. A terra em volta estava fofa até o muro, por um lado, e até a zona sob a casa, por outro. Foi escavada e escorada, até a área da casa, com cimento. Choveu. A chuva mostrou que o mesmo ou outro prestador de serviços passado, talvez o autor da fossa catastrófica e estúpidamente feita, havia deixado um cano (vindo do tal vazamento, e que parecia um encanamento “morto”) que coletava água de chuva e escoava para a tal fossa, contribuindo, por anos, para criar um solo umido, fofo e abrigo para vida silvestre (maligna). A chuva produziu as tradicionais goteiras que me causam pânico há muitos anos. Depois de muito estudo, a saída mais em conta mostrou-se ser colocar uma manta metálica sob o telhado, sobre o forro. O teto foi destelhado e revelou uma grossa camada de um pó preto. Esse pó é constituido por detritos variados, cadáveres de animais (insetos, aranhas, escorpiões, ratos, baratas, aves, etc) e principalmente fezes. Fezes de todos estes bichos. Diante disso, foi necessário varrer o detrito para fixação da manta. Como as goteiras por anos danificaram a madeira do forro, o encaixe delas é ausente em vários pontos, produzindo orifícios. O pó preto entrou pelos buracos e cobriu a casa toda.
Imediatamente meus olhos começaram a arder, o nariz entupiu e tive reações do tipo sinusite. Durante três dias convivi com o pó ali dentro, talvez um pouco mais. Quando finalmente minha faxineira veio, avisada do que encontraria, com sua filha para ajudar, teve também reações alérgicas no momento.
Depois disso, alguns dias passados, tive uma forte diarréia com febre, semelhante à virose incompreensível que havia tido umas duas semanas antes. A faxineira teve outros sintomas: bronquite asmática, dores de cabeça e febre. No hospital, deram-lhe inalação. O coelho que morava comigo está morrendo de uma lesão neurológica que fez com que perdesse a orientação. As veterinárias suspeitam de fungos.
Pesquisei, e trata-se de crytococcosis ou coccidiomycosis no caso do coelho. Tenho muito medo que também no caso da minha faxineira e sua família e estou tomando providências. Elas dizem que agora estão bem, mas a infecção por estes fungos pode ser letal.
No meu caso, pesquisei todos os sintomas e não deve ser fungo. O que não quer dizer que não seja uma zoonose da mesma origem: os detritos do forro. Desde a primeira doença, há 3 semanas, a origem pode ser essa. Afinal, o forro está danificado e cheio de orifícios há anos, e por eles escorrem, a cada chuva, um líquido destilado dos detritos contaminados.
Os trabalhadores também passaram mal. Alguns tiveram problemas respiratórios, outros diarréia.
Esta semana faremos a mesma operação para colocar a manta do outro lado do teto da casa, maior. Estou tomando providências para proteger a saúde dos trabalhadores, do pessoal de limpeza e eu mesma vou sair da casa pelos dias em que os trabalhos forem feitos.
Me ocorreu que meu horror histórico à chuva tenha sido, em parte, uma imprecisa percepção desta contaminação permanente. Um dia um amigo me perguntou o que exatamente eu sentia em relação à chuva. Eu respondi: que é um banho de esgoto. Esgoto caindo do céu.
De fato, dentro da minha casa chovia esgoto. Da pior espécie.
Por anos chamei gente para resolver esse problema, sem nenhum sucesso. Pensando nos componentes dos detritos, são um raro material para aquelas poções terríveis que vemos em livros e filmes de terror. Aos quais o bruxo só tem acesso por malignos poderes.
Chuva do mal. Finalmente acabou.
Um dia talvez eu desista das palavras faladas, como desisti de outras coisas. O mundo deles é complexo demais para mim, cheio de sub-textos e nuances de sentidos não literais, discursos coloridos por pausas e semi-ditos invisíveis para uma daltônica como eu. O exercício de interpretação me dá dor de cabeça, e o que lhes é óbvio, pelos sentidos que me faltam, é apenas absurdo.
Se o deles me é assim, tão complexo pela sua imprecisão, o meu é inteiramente irreconhecível para eles. Como boa professora que me orgulho de ser, sempre busquei formas alternativas de expressar o mesmo conteúdo, para benefício do interlocutor. Fracasso: a resposta é uma profusão de sub-textos e mais sub-textos, respostas em forma de pseudo-perguntas, implicaturas que me lembram os workshops de Marcelo Dascal sobre a pragmática da metáfora e... cansaço. Apenas um grande cansaço e frustração.
Olho para o lado e apenas espero que Leo me traduza, como sempre faz. Ele sorri, adorável, e o mundo entende. Aos poucos venho me acomodando nas dobras da jaqueta dele, como um simbionte pensativo. Eu penso, sinto e vivo meu mundo interior ali – deixo que ele o explique aos outros, se estritamente necessário. Para o mundo, ofereço minha herança fácil, os substantivos, o produto da pura razão, idéias que espero terem vida própria e mais longa que a minha. Desta, a qualquer momento aguardo a extinção.
“Isso é errado, é ruim e é triste”, diz ele, e tem razão. Pacientemente, Leo me empurra para o mundo, como o pai que encoraja a criança a entrar na sala do jardim da infância. Que medo. Lembro disso? Ou não? Acho que não, mas lembro dos (hoje pequenos) monstros à minha volta, que conheciam uma linguagem incompreensível para mim e me olhavam com aqueles olhos cheios de intenções. O que eles queriam? Nunca soube, eu, que apenas conhecia o verbo, o código escrito que eles não suspeitavam ter valor. Quando foi que aprendi a escrever? Não sei - meus irmãos me ensinaram, como me ensinaram a nadar para não me afogar, bem antes que as memórias pudessem se formar disponíveis para a adulta que sou.
Assim, a palavra escrita me salvou do afogamento, mas não das tsunamis de sub-textos incodificáveis dos monstros que cresceram, se tornaram homens e mulheres e habitaram um mundo que continuei achando estranho. E perigoso.
Talvez por isso eu não tenha medo da barra carregada. Talvez por isso mesmo eu me treine sem spotter, tantas vezes. Talvez também por isso tenha achado engraçado e, até mesmo libertador, quando a barra caiu com 110kg no meu rosto e me quebrou o nariz apenas.
No mundo real, no entanto, além do paraíso das barras e anilhas, é preciso ter um spotter. Alguém precisa me passar a barra, que nunca enxergo. Me arrumar no banco, que tem sempre altura errada. Proteger minha retaguarda para que o mundo não me esmague. Que simplesmente esteja lá, com seu silêncio focado, sua empatia e sua proteção. Na mão do spotter, entragamos a vida. O spotter é o senhor da sintonia sem palavras, além delas, acima delas, de alma para alma. É preciso alma de guerreiro para ser spotter de outro.
Tem que ser recíproco: spotters spot each other.
A palavra singular do Gilson de três anos atrás ainda ecoa nos meus ouvidos: “confia”. Era o sinal para que eu aceitasse o desafio da mais fantástica das experiências: agachar com uma barra carregada nas costas. Era possível, pois ele estava ali, atrás, e dizia “confia”.
Meu deus, como é difícil. Não agachar – isso é fácil, e hoje eu sei ensinar. Mas confiar. Eu, que nunca confiei em ninguém, pois sempre soube, do mais profundo do meu desespero, que isso era impossível: confiança requer compreensão. Como posso confiar em quem sequer sabe o que faço? Sequer me enxerga? Sequer suspeita do que falo?
Mas ali, com a barra nas costas, aprendi a confiar. Ali, com a barra nas mãos, deitada e vulnerável num banco, com um peso que facilmente me deceparia, aprendi a confiar.
É preciso a alma de guerreiro, de power, para ser um spotter. Mas nem todo power é um spotter. De verdade verdadeira, com a entrega e generosidade necessária.
Então se aproximou de mim alguém, em quem acho que vi a alma do guerreiro e uma missão confusa em formação. Ele me pede armas para sua luta; eu dou. Ele precisa do aço, e aprender a usá-lo. Precisa da armadura. Meu papel é apenas indicar onde estão, e partilhar com ele o que aprendi de guerreiros que me precederam numa sucessão antiquíssima, que chega até os deuses, que sorriem para nós do Valhala.
Os outros todos que se encantaram com o brilho do metal se perderam. Não souberam amar o aço como requer a Grande Arte. Não puderam aceitar a Força infinita da Terra transmitida por ele. Se perderam nas mentiras das mentiras, da grana, dos casamentos, do poder, da raiva e de tantas outras ilusões.
Nem o Leo pode traduzir isso que eu sei, mas que não pode ser dito. Faz parte das verdades reveladas.
Mas o guerreiro que se aproxima me olha, com aquele silêncio denso de quem investiga o que quer. E um dia me disse “quero aprender a enfaixar você”. Juramento mágico entre guerreiros, “lutarei ao seu lado, enquanto você lutar do meu”. Será verdade? Será ele um spotter, com alma de guerreiro mesmo? Daqueles que as entranhas da Grande Mãe quase não produzem mais?
Se ele for, não precisarei de tradutor. Se ele for, um dia ouvirei a palavra mágica. “Confia”. E se eu falhar, ele estará lá, com seus braços fortes, para segurar meu corpo de guerreira caída em batalha.
Só o tempo fará com que ele se descubra guerreiro, e me descubra companheira na guerra. Ou não.
O pessoal que vem acompanhando há dois anos minha insistência em idéias que todos preferem ignorar quanto a mulheres e seus corpos, como alienação corporal, déficit de repertório motor, desordens de auto-imagem provocadas por uma corporalidade mutilada, entre outras, tem uma chance para um “aperitivo presencial”: dia 9 de maio vou oferecer, na UNIFIEO, um curso bem curto. As questões abordadas são as que vêm sendo debatidas tanto no meu site, blog, como no Portal da Educação Física. Detalhes sobre inscrições e horário estão aqui, ou abaixo deste texto.
Quero aproveitar a oportunidade para apresentar meu recente colaborador, Walter Krause Neto. A parceria com ele deu outra diversidade e profundidade ao trabalho. Walter é educador físico e tem se dedicado, nos últimos anos, a pesquisar as evidências na literatura que contestam os velhos paradigmas e também a colocar em prática a perspectiva sobre treinamento que temos em comum. Como professore e personal trainer, Walter tem tido resultado muito promissor com suas próprias alunas.
Este curso do dia 9 de maio é apenas uma introdução para outras atividades que planejamos durante o ano, que incluem mais cursos presenciais e online, bem como a preparação de nosso livro.
Aguardamos vocês lá com perguntas, sugestões e, principalmente, com idéias para debater.
TREINAMENTO DE FORÇA PARA MULHERES
Turma: 20/09
Duração: 4 horas
Data: 09/05/2009
Aulas: Sábado, das 11:45h às 15:45h
Inscrições: até 30/05/2009
Endereço: UNIFIEO - Campus Vila Yara - Av. Franz Voegeli, 300 - CEP 06020-190 - Vila Yara - Osasco – SP
Valor do curso: R$ 40.00
Inscrição até: 30/05/2009 ONLINE: http://www.unifieo.br/extensao/index.php
Informações: 3651.9919 (das 7h30 às 13h) ou 3651.9924 (das 13h às 22h) ou encaminhe um e-mail para: proextecultura@unifieo.br
Tem esse beija-flor que de vez em quando me visita. E de vez em quando o comportamento dele é esquisito: ele fica esvoaçando e aparentemente tentando tocar algo que não é flor. Pode ser o batente da minha varanda ou o telhado. Hoje ele quase entrou dentro da minha casa e ficou esvoaçando minha janela, como uma abelha.
Eu já tenho uma roseira branca metafórica, que recentemente pariu quase uma dúzia de rosas sem aviso, uma roseira preguiçosa, acho que também metafórica, meio psicodélica, penso que para completar agora tenho um beija-flor metafórico.
Tomar cuidado com a devoradora de metáfora, metonímias e hipérboles. Se ele voar baixo, bem possível que a Pagu o devore.
E bom eu tomar cuidado também, pois esse beija-flor metafórico costuma me visitar antes de grandes revoluções imprevistas no meu entorno. Que será dessa vez?
Eu sei que está tudo atrasado, que tenho que terminar o(s) livro(s), que me cobram colunas, que eu não estou dando conta nem de mim mesma, mas esse mal-estar me oprime só por aparentes quatro (ou melhor, seis) lados. Na verdade são muito mais. Estes seis, no entanto, além de boa metáfora, são os mais visíveis.
É claustrofóbica a sensação de que, para qualquer lado familiar que se olhe, só o que se enxerga é estranhamento. Existe uma forma conhecida de sair daqui, que é a da porta do sotão. Esta eu venho adiando.
Partilho então esta, que seria originalmente uma carta à Martha e Zysman, mas que talvez me faça bem gritar no espaço digital.
Será que existe inferno astral pós-aniversário? Pois desde os dois dias anteriores, parece que todos os fantasmas e pesadelos do passado resolveram me re-visitar.
Acho que eu vou de trás para frente, que dá mais o tom do filme de terror: começa com o horrorzinho light e vai-se vertiginosamente descendo a escada espiralada do inferno. Meio Lovecraft, como gostam os dois primeiros personagens.
Estes personagens pertecem ao último estertor antes de uma ruptura radical. Com o quê, você decide. Pertenci a isso, a esse pequeno círculo de cúmplices no humor negro e impotência, que se contentam em ironizar a mediocridade da universidade pública, da literatura, do cinema, das artes, da cultura ocidental em geral, não sem antes vomitar em qualquer tentativa de sequer olhar para outras culturas, pois no fundo são de um iluminismo xiita e militante. Lembro das crises de riso partilhada que tivemos com o “Sokal Hoax” em 1994. Sokal é um físico de orientação epistemológica conservadora que resolveu denunciar a suposta fraude intelectual de tudo que se produzia sob o rótulo de “pos-modernidade”, “construcionismo”, “relativismo” e todas as imbricações deles. A estratégia foi criativa: ele submeteu um artigo, foi aceito e publicado na revista Social Text. Em seguida, ele revelou o que tinha feito em outra revista: Lingua Franca. O artigo era bullshit do começo ao fim, propositadamente sem sentido e continha centenas de citações “coerentes” com os rótulos e filiações academico-ideológicas que ele pretendia denunciar (ou destruir?). Um dos desdobramentos mais divertidos e inocentes do Sokal Affair é o “Postmodernist Generator”, que gera aleatoriamente o mesmo tipo de Sokal-bullshit automaticamente.
Bacana e divertido. E trágico. Para mim, um claro exemplo de se jogar o bebê fora junto com a água do banho. Com esse pensamento, jamais verbalizado, vi uma pequena parede que me separava do meu círculo de cínicos.
Os amigos que desde o início dos anos 1990 riem (ou choram) com as mesmas piadas auto-promocionais são contatos dolorosos hoje. Só ontem me dei conta de que me sinto profundamente intimidada, culpada e talvez até me sinta uma grande fraude diante deles. Pois, como posso me divertir e compreender o Sokal Affair, rir do postmodernist-babble, ter engulhos com new age crap e me dedicar seriamente a discutir alienação corporal? Cruzei uma fronteira proibida, transgredi pressupostos importantes. Pior: empreguei terminologia que, no estatuto do grupo, está tipificada no inciso “gerador de engulhos”. “Corporalidade”? UGA. “Sustentabilidade”? UGA.
Só hoje de manhã me dei conta de como essa postura, e o estatuto todo do grupo, é conservador. Como tal, tão eficiente na esterilização de idéias quanto uma autoclave intelectual.
Por mais afeto (ups... afeto também é proibido... gente racional não verbaliza afetos, apenas os vive através de prozac ou álcool) que tenha por eles, só vejo ali mais um elemento de opressão e culpogênese. Como se fossem uma família nuclear, todos eles mamães e papais com suas camadas de coisas não ditas que pesam várias toneladas.
A maior parte deles acompanhou com incredulidade meu mergulho feliz nos esportes de força. Alguns apenas dizem cruamente que acham isso muito feio e incompreensível. Outros realmente ridicularizam. Um amigo coleciona videos de luta de braço (arm wrestling), um esporte complexo, de técnica sofisticada, bem institucionalizado e interessantíssimo do ponto de vista cinesiológico. Ele coleciona da mesma forma que coleciona pinguins de geladeira e jingles ridículos dos anos 1960. E aí? Eu nunca tive o culhão de dizer a ele que só não fui ainda treinar luta de braço porque, como boa atleta de supino que sou, tenho uma epicondilite lateral crônica que me atrapalharia. Por que não falei? Em parte para não criar o constrangedor silêncio do estranhamento total, durante o qual eu me transmutaria, na frente dele, num ser verde com três orelhas falando um dialeto derivado do Klingon.
Mas em parte por vergonha e culpa... Não sei de onde elas vêm, mas talvez dessa trajetória de exclusão após exclusão, todas voluntárias, que já deixei de recobrir com a falsa retórica da superioridade intelectual. Não, isso sequer existe.
Em parte porque fico triste de ter que fazer opções excludentes. Sinto-me como que diante de dois pretendentes que me propõe: “ou ele ou eu, pois exijo exclusividade”. Por que não posso continuar rindo de postmodernist crap, trash movies, charlatanismo new age e ao mesmo tempo passar três dias assistindo, filmando e comentando luta de braço e levantamento de peso? E escrevendo sobre alienação corporal – alienação que, diga-se de passagem, é a marca registrada deles, orgulhosos de seu sedentarismo e uso recreativo (será?) de substâncias.
Mas não pode. Ame-o ou deixe-o.
Outro ame-o ou deixe-o foi a Academia, sensu grego. E esse eu deixei com o alívio de quem pula do carro desgovernado em alta velocidade em direção ao abismo. O carro se despedaçou e eu fiquei sentada no beira do desfiladeiro, no deserto (o cenário é o Grand Canyon, claro), observando o que teria sido o meu destino.
Caras como Gabriel Cohn, Maria Herminia, Renato Dagnino, foram personagens do segundo pior pesadelo que já vivi em toda a minha vida. Pior que este, só os estupros dentro da Convergência Socialista, pau a pau com os estupros psicológicos dentro do Partidão. Não posso esquecer das palavras de Gabriel Cohn para meus alunos, explicando que mérito, na verdade, não existia, e sim “estar no lugar certo, na hora certa”, enquanto eles carregavam meu currículo várias vezes mais volumoso que o de meus concorrentes. Eu ganhei uma posição cativa no quarto lugar em concursos de universidades públicas, até mesmo no centro de estudos da ciência (esqueci e não faço questão de buscar o nome) da UNICAMP, onde Dagnino gritou para toda a platéia ouvir que “nem sobre o meu cadáver uma traidora como você entrará no meu departamento” (tudo bem, Renato, se quiser processar vá em frente, tem um monte de testemunha...). O quarto lugar, para quem não sabe, é o mais seguro quando se deseja garantir que o candidato jamais será contratado, mesmo que por uma fatalidade sejam abertos mais claros do que os previstos no ano seguinte ao concurso.
Até que finalmente Bruno Reis me explicou que era melhor eu desistir, pois essa mimese, elogiada pelos amigos, que me faz capaz de escrever e discutir segundo as bases conceituais de diferentes disciplinas dado tempo suficiente, era a causa determinante da minha rejeição. “Ninguém pode confiar em você, Marilia, pois alguém que escreve como cientista política, ou socióloga, ou antropóloga, dominando seus conceitos mas com uma base educacional heterodoxa como a sua não tem fidelidade”.
E assim foi sepultada para sempre mais uma hipocrisia acadêmica, a da apologia à trans, multi, poli, inter ou o-caralho-que-o-seja-disciplinaridade. Trans-disciplinaridade é “super fofo” LONGE. Para isso, os editais são bem fechadinhos, de maneira a garantir que sejam contratadas pessoas absolutamente DISCIPLINARES. E, claro, confiáveis. Gente como eu não é confiável, até mesmo por ter ética, pois faz parte da confiabilidade fazer vista grossa aos abusos com dinheiro público que se faz na universidade. Talvez por isso não tenha sobrado nenhuma consultoria sensacional para mim, e sim para a colega que nem sabe o que é “controlar por classe”, mas que soube ser a “co-autora oficial” dos bons nomes do governo Fernando Henrique.
O problema é que tudo isso não constituiu só um bando de decepções intelectuais. Ao contrário dos meus amigos do círculo do cinismo, todos muito bem ocupados, empregados, financeiramente estáveis, obrigado, eu fui violentamente atacada em cada uma destas circunstâncias. Responsabilidade minha? Óbvio. Mas, plagiando Gabriel Cohn, eu estava na hora certa, no lugar certo, para ser protagonista de uma putaria qualquer, fui e não passei pelo estupro sem gritar.
O concurso da USP, pelas pressões que implicou, me tirou os poucos quilos que eu mantinha dentro do tóxico ambiente institucional. Eu tinha esquecido do fantasma branco de 40kg na frente do espelho, que alguém tinha maquiado como se maquiam os cadáveres, para não chocar muito o público. Sentada, na cama, na frenet do espelho, cheia de sangue escorrendo pelo pescoço. Lamento pela ignorância da psiquiatria mainstream, mas desordem bipolar é altamente dependente de contextualidade: da mesma forma que esteve sob controle na minha adolescência atlética e, agora, desde 2005, emergiu com toda a violência como resposta à violência institucional. Bipolares, entre outros, são alarmes da violência institucional (mas é sempre mais fácil drogá-los até torná-los vegetais do que considerar que há algo de errado no sistema).
Por isso, dois dias antes do meu aniversário, quando recebi o filminho sobre anorexia que abre com a menininha loirinha inocente olhando para a câmera, tive um acesso de choro esquisito. Não chorava há muito tempo. Não tenho empatia com anoréxicas. A maior parte delas é ideológica e defende padrões opressivos que eu me dedico a destruir. Mas eu me vi ali – o que elas fazem por vontade, me foi feito por violência.
Hoje, nas raras circustâncias em que perco a fome, me obrigo a tomar um shake. Tenho pavor de perder peso. Não é bem óbvio de onde vem isso? Não, não é: tem os horrores da infância, mas essa é outra história, que fica para uma outra vez.
Assim, a primeira parede, mais benigna, são os amigos do círculo cínico, que ironizam a parede dos poderes institucionais acadêmicos e arredores simbólicos (imprensa, cinema, etc). Evidente que os primeiros são infinitamente melhores do que os segundos, mas são paredes. Uma do lado esquerdo, uma do direito.
A terceira parede, atrás de mim, é o establishment comercial. Esse é um pouco mais fácil, porque é mais objetivo. Mais ladrão, mais assassino, mas mais objetivo. As pessoas não podem ser confundidas com gente. Esse é um erro frequente que eu cometo. Como disse um grande advogado de patentes americano que conheci “corporations don’t have ethics, don’t have social responsability, don’t respect codes: put it in your head once and for all, they are NOT people”. Não que pessoas necessariamente tenham essas qualidades, mas potencialmente sim. Já instituições por definição não têm.
No entanto, o fato de serem animadas por seres humanos (o que quer que os chamemos) me confunde e vira uma parede. Pior: esses humanos tem “issues” comigo, na imensa maioria das vezes. Eu teria mais facilidade se nenhum deles tivesse qualquer reação emocional no trato com a minha pessoa. Mas têm. Editores inevitavelmente entram numa viagem de auto-afirmação, incompreensível para mim, como Dorrit Harazim da Piauí. Pentelham a edição do texto até que o autor (eu) não suporte mais, ainda que para isso tenham que transgredir até mesmo o bom-senso, introduzindo, como foi o caso, um fato inverídico no texto. No momento em que digo “assim não dá”, o jogo foi feito: ou dá ou desce. Eu sempre desço.
A parede de cima, o teto, é a família e sobre essa eu me calo. São dores demais e ao mesmo tempo compaixão demais. Não diz respeito ao público. Ao mesmo tempo, não por acaso é o teto, o pior e mais esmagador dos lados de um cubo, ou de um quarto.
A quinta parede, o chão, é a comunidade do esporte e educação física. Minhas vidas passadas são incompreensíveis e em grande parte irrelevantes para eles. Em parte, é onde me sinto melhor, portanto o chão. Mas é onde valores caríssimos que construí ao longo da vida, desconstruções fundamentais, reflexões sofisticadas mas não diletantes, quanto a estrutura social, família, relações e sexualidade devem ficar submersos sob um silêncio ligeiramente ameaçador. Eles sabem que sou “diferente”, mas, ao contrário de outras sub-culturas, têm mais tolerância – desde que eu cumpra minha contra-partida de ficar calada sobre os temas tabú.
A parede de frente é a incognita. São os re-encontros, os vínculos de empatia, onde existe afeto mas também um pouco de medo e cautela. Me aproximo e me afasto, mas olho só para ela, enquanto as outras vão me apertando, como nas câmaras de terror. Por esse medo, ainda é uma parede, mas bem translúcida.
No meio dela, a porta. A eterna porta da loucura, sempre entre-aberta. Às vezes mais aberta, às vezes mais fechada. Com a dor ela abre perigosamente, com a alegria e a esperança ela fecha. Nas noites de agachamento ela parece trancar (como diz o Renato, o mundo seria melhor se todo mundo agachasse). Mas não vou mentir: nunca tirei a mão dessa maçaneta.
Hoje é o primeiro dia do ano. Às 15:25h, o espelho do banheiro caiu e se espatifou, fazendo muito barulho, no segundo em que terminei de assistir um filme sobre dois homens lidando com a irreversibilidade de perdas graves. Era um espelho já meio quebrado – Rita vivia insistindo para que eu me livrasse dele. Dizia que trazia má sorte. Eu achava que meu rosto ficava bem naquele espelho, sei lá por que.
Olhei o espelho quebrado e fui até a janela do meu quarto. Lá fora, a rosa da roseira misteriosa está totalmente aberta, já querendo despetalar. Em botão, ela parecia vermelha. Foi abrindo e revelando um tom alaranjado. Mas no meio, é branca. Levou meses quieta mas floriu e abriu hoje.
O que quer dizer tudo isso?
A imagem exterior quebrada, destruída, deixando um espaço neutro para construção – um bando de ladrilhos? O vermelho que vira branco, paixões, ímpetos e impulsos se transmutando em paz e serenidade? A resposta para o espalho quebrado? Chega de lidar com perdas?
Ou só um espelho mal colocado que finalmente caiu num dia excessivamente quente que deformou a parede de madeira só o necessário para empurrá-lo para o chão? E uma rosa de enxerto que produz efeitos psicodélicos?...
Não sei, preciso perguntar isso à Pagu, a devoradora de metáforas, hipérboles e metonímias.
“Sister Steel” é um pedaço do título de um livro clássico para atletas de força – “Brother Iron, Sister Steel” (por Dave Draper). Além do meu envolvimento com esportes de força e saúde, a idéia de que o Aço pode ser uma irmã, assim como o Ferro pode ser um irmão, suportes para a (re) construção de vidas e identidades, esse título expressa o conteúdo do Blog: crônicas diversas do ponto de vista de uma mulher nascida nos anos de chumbo da década de 60. Minha geração de mulheres viveu vidas metálicas, amores pesados e infelizmente enfrenta cheia de armaduras de ferro os novos desafios. Tough love e coragem dura – somos nós.
Se você desejar receber notificações semanais sobre as atualizações deste blog e de outros blogs e colunas que eu mantenho, envie e-mail para marilia-coutinho@uol.com.br com o assunto “notificações”. Os blogs e colunas estão listados no site BodyStuff.

Eu tenho duas roseiras. Uma é pequena e de rosas brancas. A outra não faço idéia – nunca produziu. A pequena já floriu três vezes desde que a plantei, há uns 4 meses. Há uma semana notei dois botões em galhos rigorosamente simétricos. Botões rigorosamente simétricos, também. Foram gradualmente abrindo. A roseira fica de frente para a janela do meu quarto e os galhos com botões são paralelos à parede, como se o arbusto abrisse os braços para mim. Todas as manhãs observei os botões e finalmente as flores abertas.
Brancas – imaculadamente brancas, iguais e simétricas. De uma beleza hipnótica. Wow. Nós, animais simbólicos que somos, não resistimos a simbolizar em cima da beleza. Impossível que seja só beleza, beleza efêmera, beleza inapropriável. Deve ser algum sinal. Uma dessas mensagens ocultas, charadas encriptadas em simbolos atávicos. Deixa eu ver: rosa... brancura... simetria... par... efêmero...
Par, pureza, simetria. Crescimento em par. Par?
Então veio a Pagu e comeu uma das rosas em segundos. Já eram todas as metáforas e minhocas simbólicas.
The end!




